Novel

Chapter 12: O Retorno do Deus da Guerra

Arthur consolida publicamente sua autoridade ao visitar o hospital agora respeitoso, recebe o pen drive com provas de Otávio de Helena, formaliza a transferência definitiva dos ativos familiares no cartório e caminha pela cidade que o reconhece, enquanto recebe atualização de Valente sobre a escalada iminente da organização internacional em menos de 48 horas.

Release unitFull access availablePortuguese / Português
Full chapter open Full chapter access is active.

O Retorno do Deus da Guerra

Arthur saiu pela lateral do salão antes que a multidão engolisse o corredor principal. O cheiro de papel velho e suor seco impregnava o corredor de serviço. Ele não olhou para trás. Quando pisou na calçada da Avenida Paulista, o sol da tarde acertou seus olhos como uma lâmina.

Um motoboy travou os freios, a moto guinchando. Dois executivos de alfaiataria italiana interromperam a frase no meio e viraram o rosto. Arthur continuou andando, mãos nos bolsos do paletó cinza simples — o mesmo que usara no corredor do hospital meses antes.

Na esquina com a Brigadeiro, o segurança do banco privado — aquele que o barrara com um “sem agendamento, senhor” seco — abriu a porta de vidro antes que Arthur chegasse a dez metros. Baixou a cabeça num aceno curto e rápido. Arthur passou sem diminuir o ritmo.

Helena esperava no SUV preto em fila dupla. Desceu sozinha, tailleur cinza-pérola, cabelo preso num coque baixo, postura que não tremia mais. Pela primeira vez em anos, os dedos dela repousavam firmes na alça da bolsa.

— Demorou — disse ela, voz baixa, quase rouca.

— O delegado quis algemar o Ricardo na frente das câmeras. Pediu foto comigo. Recusei.

Helena deixou escapar um meio sorriso que não chegou aos olhos.

— Duas horas e você já é o assunto da cidade. As mensagens não param.

Arthur abriu a porta traseira para ela. Entrou em seguida. O motorista acelerou em direção ao Hospital São Lucas. Dentro do carro o silêncio pesava como chumbo. Helena olhava pela janela, dedos imóveis no joelho.

— Você não precisava voltar lá hoje — disse ela depois de um tempo. — As dívidas foram zeradas ontem à noite. O diretor ligou pessoalmente.

— Preciso ver com meus próprios olhos.

Ela virou o rosto para ele.

— Sempre precisou.

O hospital surgiu à frente, fachada branca refletindo o sol. As portas automáticas se abriram antes que Arthur tocasse o sensor. A recepcionista levantou-se de supetão, cadeira rangendo contra o piso.

— Senhor Arthur… a suíte presidencial está liberada. Sem custo. Nunca mais haverá cobrança.

Ele apenas acenou e seguiu pelo corredor de mármore. Enfermeiros se afastaram, abrindo caminho como se ele carregasse um campo de força invisível.

Helena já estava na poltrona junto à janela da suíte, olhando o estacionamento VIP. Virou-se ao ouvir os passos.

— Você veio.

— Eu disse que viria.

Arthur parou a três passos dela. Mãos nos bolsos. Observou o rosto dela em silêncio por longos segundos.

— O pen drive — disse ele, direto.

Helena respirou fundo, abriu a bolsa e entregou o dispositivo preto.

— Tudo o que Otávio deixou na mansão antes de sumir. Transferências, contas offshore, nomes, datas, valores. Ele achava que eu não ia perceber.

Arthur girou o pen drive entre os dedos, o plástico frio contra a pele.

— Valente já confirmou metade. O resto chega nas próximas horas.

Helena baixou os olhos por um instante, depois ergueu o queixo.

— Eu segurei tudo sozinha enquanto você estava fora. Mas agora… não aguento mais carregar sozinha.

Ele sustentou o olhar dela.

— Não vai precisar.

Ela piscou, surpresa.

— Você assume de vez?

— Já assumi. No instante em que o martelo não caiu naquele salão.

Helena deu um riso curto, quase descrente, mas os olhos brilharam com alívio.

— A organização que mandou o aviso… 72 horas não é muito tempo.

— É tempo suficiente para deixar claro que quem tocar na família paga o triplo.

Ela se levantou devagar. Sem hesitação.

— Então eu fico do seu lado. De verdade. Sem reservas.

Arthur guardou o pen drive no bolso interno do paletó.

— Boa escolha.

Saíram juntos. No corredor, o diretor esperava, mãos suadas, sorriso forçado.

— Senhor Arthur, senhora Helena… qualquer coisa que precisarem…

— Não vamos precisar — cortou Arthur. — Mantenha o hospital limpo. É o bastante.

O diretor assentiu rápido demais, quase tropeçando na própria língua.

No elevador, Helena tocou o braço dele de leve.

— E agora?

— Cartório. Fechar o que falta.

No 23º Ofício, o recepcionista levantou-se como se tivesse levado um choque elétrico.

— Doutor Arthur, senhora Helena… sala 4 já está preparada.

O tabelião aguardava com a pasta aberta. Três vias da escritura de consolidação, transferência definitiva da holding familiar para Helena, distrato das garantias ilegais tomadas por Ricardo anos antes. Tudo carimbado, rubricado, pronto.

Helena sentou-se. Pegou a caneta sem tremor. Assinou cada via com calma deliberada. Cada assinatura era um prego no caixão de uma era.

Arthur permaneceu de pé ao lado dela, olhar fixo no tabelião.

— Alguma pendência?

— Nenhuma. O embargo foi levantado às 14h47. Tudo regular.

Helena terminou. Empurrou os documentos. O tabelião carimbou com força.

— Está feito.

Arthur olhou para ela.

— O legado está com você. Protegido.

Ela se levantou e o encarou diretamente.

— E você?

— Eu fico na frente.

Saíram lado a lado. Na calçada o sol já descia. Pessoas paravam. Algumas fotografavam discretamente. Outras baixavam a cabeça em silêncio.

Arthur parou no meio da calçada. Olhou a cidade que o cuspira anos antes. Agora ela o encarava de volta — com cautela, com respeito forçado, com medo contido.

Helena tocou seu braço novamente.

— Eles sabem quem você é.

— Sabem. Mas ainda não sabem o que vem depois.

O celular vibrou uma vez no bolso. Mensagem de Valente: “Eles estão se mexendo. Restam 48 horas. O próximo lance não vem da América do Sul.”

Arthur guardou o aparelho sem responder. Olhou para o horizonte onde os prédios cortavam o céu laranja.

A cidade parecia se curvar diante dele. Mas seus olhos já procuravam além dela — onde a guerra de verdade começava.

Member Access

Unlock the full catalog

Free preview gets people in. Membership keeps the story moving.

  • Monthly and yearly membership
  • Comic pages, novels, and screen catalog
  • Resume progress and keep favorites synced