Sombras na Mansão
A mansão da família, outrora um bastião de prestígio, parecia agora um alvo pintado de vermelho. Arthur observava o jardim pelo monitor de segurança, seus dedos tamborilando um ritmo metódico na bancada de mogno. Três figuras vestidas de preto, movendo-se com a precisão mecânica de mercenários, haviam acabado de saltar o muro dos fundos. Não eram capangas de aluguel de Ricardo; o movimento era tático, silencioso, profissional. O consórcio, humilhado pela interrupção do leilão, não estava mais jogando o jogo das licitações. Eles haviam passado para a fase de limpeza.
— Arthur, o que está acontecendo? — A voz de Helena ecoou pelo corredor. Ela segurava um roupão, os olhos arregalados pela tensão que parecia emanar das paredes. — Ouvi um barulho na varanda.
— Fique no quarto, Helena. Tranque a porta — ordenou Arthur. Sua voz era desprovida de hesitação, um comando que não admitia réplica. Ele não se levantou com pressa, mas sua postura mudou. A calma que projetava era a de um predador que já havia calculado a trajetória de cada intruso antes mesmo de eles tocarem o gramado. — E não saia, independentemente do que ouvir.
Arthur atravessou o corredor em direção à varanda lateral. O primeiro invasor, um homem de ombros largos, subiu os degraus com um dispositivo de pulso magnético, pronto para violar a fechadura eletrônica. Arthur não esperou. Ele surgiu da escuridão como uma sombra sólida. Com um movimento fluido, interceptou o braço do homem antes que o dispositivo tocasse a porta, girando o pulso do invasor com uma precisão cirúrgica que resultou em um estalo seco. O homem soltou um ganido abafado, mas Arthur já o imobilizava contra o batente. Os outros dois, ao ouvirem o movimento, hesitaram por um segundo fatal. Foi o suficiente. Arthur, usando o treinamento que a cidade julgava ter sido enterrado em seu passado, neutralizou o segundo com um golpe seco na base do pescoço, derrubando-o como um fardo de areia. O terceiro tentou sacar uma arma, mas Arthur foi mais rápido, desarmando-o com um movimento de alavanca que o forçou a cair de joelhos no piso frio da varanda.
Na garagem, Arthur arrastou o líder dos invasores, que ainda lutava para recuperar o fôlego. O cheiro de suor frio e o padrão de respiração descompassada entregavam o pavor crescente do mercenário. Arthur o pressionou contra o capô do carro da família, a pressão de seu polegar sobre o nervo do ombro forçando o homem a uma imobilidade forçada.
— O consórcio não paga o suficiente para você morrer por eles — a voz de Arthur era um sussurro cortante. — Quem enviou vocês? Ricardo não tem mais autoridade para dar ordens, e ele sabe disso. Ele está ocupado demais tentando esconder os próprios rastros da auditoria que eu iniciei.
O homem tentou se debater, mas Arthur girou o pulso, forçando um grito contido.
— O prefeito — o invasor soltou, a voz trêmula. — Eles disseram que, se a escritura não aparecesse, a mansão seria tomada hoje à noite. Disseram que você é um problema que precisa ser deletado do sistema. Eles não querem o terreno, querem o que está escondido sob o registro de 1998.
Arthur soltou o braço do homem, empurrando-o contra a parede de concreto. O invasor fugiu em pânico, sabendo que Arthur era uma ameaça que o consórcio não poderia conter. Arthur ficou ali por um momento, observando a escuridão, ciente de que o jogo havia escalado de uma disputa de terras para uma guerra de sobrevivência.
Ele retornou ao escritório, onde Helena o esperava. O ar ali cheirava a mogno envelhecido e poeira, um contraste gritante com a esterilidade metálica do hospital. Arthur fechou a porta pesada, o clique da tranca ecoando como uma sentença. Helena estava parada diante do cofre embutido na parede.
— Arthur, se isso for o que eu penso... não podemos voltar atrás — a voz dela era um sussurro tenso.
Ele inseriu a chave que Helena lhe entregara. Ela girou, mas algo estava errado. A resistência do metal era leve demais, sem a fricção característica dos pinos de segurança originais. Arthur puxou a chave. O corte do metal era grosseiro, uma falsificação barata feita às pressas.
— Alguém trocou a chave — disse ele, a voz fria. — O inimigo não está apenas vigiando os portões; ele está infiltrado na nossa rotina.
Helena empalideceu, apoiando-se na mesa. Com uma pressão precisa de seu polegar contra a placa frontal, Arthur forçou o mecanismo, ignorando o segredo oficial. O cofre cedeu com um estalo metálico. Dentro, não havia apenas documentos. Havia uma foto antiga, amarelada, que mostrava o atual prefeito em uma reunião clandestina com os líderes do consórcio, décadas atrás. Mas, ao lado da foto, o espaço onde a escritura deveria estar estava vazio. O traidor não apenas trocara a chave; ele havia levado a prova definitiva da conspiração.