Novas Regras
O Hospital Alencar exalava um silêncio estéril, mas, para Arthur, o ar ainda pesava com os resquícios da corrupção de Ricardo Sampaio. Ele caminhava pelo saguão principal, observando os funcionários removerem as placas de bronze do extinto consórcio. Cada parafuso solto era uma cicatriz removida da história da instituição. Beatriz o alcançou perto da recepção, os saltos batendo ritmados no granito. Ela não exibia mais o pânico dos dias de leilão, mas seus olhos traíam uma cautela profunda ao observar Arthur.
— A perícia terminou o escritório de Sampaio — ela disse, mantendo a voz baixa. — Encontraram as contas offshore. A rede de dívidas que ele usava para estrangular o hospital foi totalmente exposta. Mas a elite da cidade... eles não vão aceitar essa mudança de mãos. Já recebi três ligações de conselheiros exigindo uma reunião sobre a governança.
Arthur parou diante da parede onde o nome de Sampaio fora retirado, deixando uma sombra mais clara na pintura. — Eles não querem governança, Beatriz. Querem o controle que perderam. Sampaio era apenas o braço armado; os que o financiavam agora sentem o chão tremer.
Horas depois, na sala de reuniões, o ambiente cheirava a café caro e medo estagnado. Três fornecedores, figuras que até quarenta e oito horas atrás se curvavam diante de Sampaio, encaravam Beatriz. “A interrupção é definitiva”, disse o porta-voz, um homem com um relógio que custava o valor de uma UTI. “Sem o consórcio de Sampaio, o hospital é um risco. Se o senhor Vale insiste em gerir este lugar, que faça mágica com prateleiras vazias.”
Arthur, encostado na penumbra da porta, deu um passo à frente. Sua voz era um corte frio. “Vocês não estão preocupados com o crédito”, afirmou, jogando uma pasta selada sobre a mesa. “Estão preocupados com a auditoria que iniciei há dez minutos. Cada nota fiscal superfaturada, cada desvio de material para o mercado paralelo sob a tutela do Sampaio, está documentado aqui.”
Os homens trocaram olhares. O porta-voz tentou manter a pose, mas suas mãos tremeram ao vislumbrar o cabeçalho do Ministério Público. A elite recuou, mas o ódio nos olhos deles era um aviso: o conflito tornara-se pessoal.
Mais tarde, no escritório da presidência, Arthur entregou a Beatriz o arquivo com os registros de dívidas ocultas das famílias da elite. Ao abrir, Beatriz sentiu o sangue fugir do rosto. “Se você usar isso, Arthur, você não será apenas um gestor. Você será o dono do destino deles.”
“Eu não estou te dando um hospital, Beatriz”, ele respondeu, observando a metrópole da varanda. “Estou te dando a arma para garantir que ninguém tente te subordinar.”
Nesse momento, um mensageiro entregou um envelope de linho pesado com o brasão do Círculo Interno. Não era um convite para uma celebração; era uma sentença de morte disfarçada de cortesia. Beatriz observou o envelope com horror. “Eles sabem que foi você. O Círculo Interno não convida estranhos para jantar sem planejar um banquete de despedida.”
Arthur abriu o envelope, lendo o convite com a precisão de um cirurgião. O local, uma mansão isolada, era a armadilha clássica. Ele queimou o convite, observando as cinzas caírem no vento da noite. O jogo mudara de patamar; ele não estava mais apenas limpando a sujeira de Sampaio, ele estava prestes a entrar na toca dos leões para arrancar a corrupção pela raiz.