O Relógio de Sangue
O brilho azulado do terminal de auditoria era a única luz na sala de arquivos mortos, mas não iluminava nada além da sentença de Elias Viana. Na tela, o status de sua conta corporativa piscava em um vermelho clínico: ACESSO REVOGADO - PERFIL DE USUÁRIO EXCLUÍDO. O sistema de prontuário, sua única arma nos últimos dez anos, acabara de declarar sua inexistência institucional. Elias sentiu o estômago revirar. Helena Sampaio não estava apenas tentando detê-lo; ela estava apagando os rastros de que ele sequer estivera ali. Se a conta de Elias não existia, qualquer evidência que ele tivesse coletado seria classificada como erro de sistema ou invasão maliciosa.
Ele ouviu o baque seco de botas táticas no corredor externo. O som não era de uma ronda de rotina. Eram três homens, o ritmo de marcha era sincronizado, pesado, vindo da ala administrativa. Ele tentou forçar o comando de bypass de emergência para destravar a porta blindada, mas o cursor travou. O sistema central de segurança havia congelado os periféricos da sala. Elias estava preso em uma caixa de concreto e metal, enquanto o relógio no canto da tela indicava que faltavam exatos 08:24:12 para a purga definitiva do servidor.
Com um golpe seco, ele usou a borda de uma estante metálica para forçar o painel da fechadura eletrônica. Fios expostos faiscaram, o cheiro de ozônio e poeira invadindo suas narinas. Ele conectou os terminais manualmente, ignorando o choque que lhe percorreu o braço. A porta cedeu com um estalo metálico. Ao sair, deu de cara com Ricardo, o segurança que ele conhecia desde que começara na auditoria. Ricardo bloqueava a única saída, a mão espalmada contra o coldre.
— Viana. Ordens da Dra. Helena. Você está fora do sistema, Elias. Não pode estar aqui — a voz de Ricardo era um murmúrio tenso, desprovido da cordialidade de anos anteriores. Ele não queria estar ali, mas o medo de perder o emprego, de ver sua família despejada em uma São Paulo que não perdoa, era mais forte do que a lealdade a um colega.
Elias não recuou. Ele sentiu o suor frio escorrer pelas costas, mas manteve a postura clínica que o definira por anos. Ele sabia que Ricardo tinha uma dívida de condomínio atrasada em seis meses; era um dado que ele vira no prontuário financeiro dos funcionários por puro acidente de auditoria.
— Ricardo, olhe para a sua tela. O que você está protegendo? — Elias deu um passo à frente, forçando o segurança a tencionar os ombros. — Eles não estão apenas limpando um prontuário. Estão movendo pacientes vivos como se fossem carga de contrabando. Se você me algemar agora, você não está mantendo a ordem. Você está assinando a sentença de pessoas que não podem se defender. E, quando a purga acontecer, você acha que eles vão se lembrar da sua lealdade ou do seu nome na folha de pagamentos?
Ricardo hesitou. O olhar do segurança oscilou entre o dever e a dúvida. Elias aproveitou a trégua de um segundo para desviar, empurrando a porta de serviço e mergulhando na escadaria de concreto. Ele não olhou para trás, mas ouviu o rádio de Ricardo chiando com ordens agressivas vindas da central.
Ele alcançou um posto de enfermagem desativado no terceiro andar. Seus dedos, trêmulos pelo cansaço e pela adrenalina, tamborilavam no teclado. 07:14:32 para a purga. Ele precisava cruzar os dados de GPS da frota terceirizada com o horário exato da remoção do paciente 402. O sistema tentou expulsá-lo, emitindo um alerta estridente. Ele forçou um bypass via protocolo de manutenção que ele mesmo instalara meses antes. A tela piscou, revelando o destino final: não era o necrotério municipal, mas uma clínica clandestina na periferia, um galpão industrial registrado como depósito de suprimentos médicos.
De repente, o terminal travou. O nome ELIAS VIANA surgiu em letras garrafais na tela, acompanhado de uma sirene silenciosa que iluminou o corredor com luzes estroboscópicas vermelhas. O sistema de segurança havia rastreado sua localização exata. Pelo interfone, a voz de Helena Sampaio ecoou, fria e precisa:
— Elias, a curiosidade custa caro. Você não é mais um auditor; você é um invasor. A equipe de contenção está a dois minutos de você.
Elias correu em direção à área de carga e descarga. Ele não tinha mais o pendrive, mas a verdade estava gravada em sua mente. Ele se infiltrou no compartimento de carga de uma van de suprimentos que partia para a periferia, o motor rugindo contra a chuva intensa de São Paulo. Ele era agora um fugitivo, carregando a prova de que o hospital não salvava vidas; ele as descartava.