Corredores de Vidro e Chuva
O zumbido dos servidores no subsolo do Hospital Santa Cecília não era ruído; era a contagem regressiva para a aniquilação de Elias Viana. O cronômetro no terminal marcava 08:28:12. A porta de aço, trancada por ordem direta da Dra. Helena Sampaio, vibrava com a pressão da purga remota que ela iniciara. O sistema de prontuários eletrônicos — a única arma que Elias possuía para provar a farsa do leito 402 — estava sendo limpo de dentro para fora.
Elias conectou o token de acesso à porta lateral do terminal. O metal estava gélido, úmido pela condensação que escorria pelas paredes, um reflexo da tempestade que isolava São Paulo. Lá fora, a cidade era um borrão de luzes distorcidas e ruas alagadas. Aqui dentro, o ar era estéril e letal.
Acesso Não Autorizado. Bloqueio em 30 segundos. O aviso em vermelho pulsava na tela.
— Vamos, sua desgraçada — sibilou Elias. Seus dedos golpeavam o teclado com a precisão de quem não tinha margem para erro. Ele não precisava de todo o banco de dados; precisava apenas do log de transferência. Com um comando final, a barra de progresso saltou para 100%. Ele arrancou o pendrive segundos antes de as luzes do setor morrerem. O breu foi absoluto.
Elias escapou pelas entranhas do hospital, navegando pelos dutos de ventilação, o ar viciado carregado com o cheiro de antisséptico e o medo de ser caçado. Ao emergir no corredor de serviço do terceiro andar, encontrou Júlia. A enfermeira estava encostada na parede, a pele pálida sob a luz fluorescente trêmula. Ela não era mais a profissional discreta de antes; seus olhos denunciavam o pânico de quem já tinha muito a perder.
— Você demorou — ela sussurrou, a voz falhando. — A segurança mudou o protocolo. Helena não está apenas monitorando, ela está caçando. Você foi incriminado pela falsificação do meu prontuário. Eles têm a prova, Elias.
Elias estendeu o pendrive, a prova de que o paciente do 402 não morrera, mas fora transferido para uma ala experimental. Antes que seus dedos se tocassem, um estrondo ecoou no fim do corredor. Três seguranças, com uniformes impecáveis e expressões vazias, emergiram das sombras. Não eram rondas; eram a "equipe de limpeza".
— Elias, corre! — gritou Júlia, avançando para interceptar os homens, tentando ganhar segundos. Foi um erro fatal. Um dos seguranças a agarrou pelo braço com uma força desproporcional, arrastando-a para trás. O pendrive, no movimento brusco, caiu no chão. Elias, escondido atrás de uma porta corta-fogo, viu o objeto ser chutado para longe, para as mãos de um dos homens de Helena.
Júlia foi levada, seus olhos encontrando os de Elias em um pedido mudo de socorro que ele não pôde atender. Ele estava sozinho. O corredor, antes um caminho de salvação, tornara-se uma armadilha. Elias pressionou as costas contra a parede, o fôlego curto. Ele perdera a prova física. No entanto, seu terminal pessoal vibrou. Uma nova notificação: um arquivo de vídeo anônimo, enviado minutos atrás.
Ele abriu o arquivo com mãos trêmulas. A imagem era granulada, mas inegável. O paciente do 402, aquele que todos acreditavam ter morrido, estava vivo, acoplado a máquinas que não pertenciam ao setor de terapia intensiva. O cronômetro do sistema, agora com 08:24:12 restantes, parecia pulsar em sincronia com seu coração. A verdade não era apenas um erro médico; era um negócio, e ele acabara de se tornar o próximo alvo da purga.