A Queda do Diretor
O ar nas docas de carga tinha gosto de ozônio e desespero. O zumbido dos servidores, antes a trilha sonora da opressão de Arnaldo Siqueira, fora substituído pelo uivo das sirenes da Polícia Federal. Elena Valente sentiu o drive USB, um retângulo de metal frio, pressionar sua lombar. Era a prova definitiva: a dosagem letal de potássio, a lavagem de dinheiro da fundação, o fim do império de Siqueira. Ao seu lado, Lucas tremia, os olhos fixos na entrada do pátio, onde a segurança privada do hospital tentava, inutilmente, conter a massa de peregrinos enfurecidos pela confissão que Elena disparara nos alto-falantes minutos antes.
— A ala isolada é um ponto cego, mas a energia foi cortada — Lucas disse, a voz falhando. — Minha irmã está lá. Se o sistema de contenção travar, ela não sobrevive dez minutos.
Elena não hesitou. O plano original era entregar as provas e desaparecer, mas a vida da irmã de Lucas era o preço daquela aliança. Ela forçou a entrada pela rede de escoamento, o cheiro de desinfetante hospitalar misturando-se ao odor de esgoto.
No escritório da direção, o silêncio era absoluto. Siqueira estava sentado atrás da mesa de mogno, a tela do computador exibindo uma barra de progresso de deleção estagnada em 98%. Ele não tentou fugir. Seus dedos, trêmulos, ainda pairavam sobre o teclado.
— Você acha que é a heroína, Elena? — Siqueira sibilou, o rosto pálido sob a luz de emergência. — Eu tenho a localização dela. Se você me entregar esse drive, eu dou a coordenada. Se avançar, a menina morre antes que a PF suba.
Elena ignorou a chantagem. Ela conectou seu terminal de acesso forçado ao servidor da sala. O som de botas pesadas no corredor interrompeu o impasse. A porta foi arrombada pelos agentes federais. Siqueira foi jogado ao chão, as algemas metálicas estalando contra seus pulsos. Elena não esperou pela leitura dos direitos; ela extraiu a localização da irmã de Lucas e correu.
O subsolo era um túmulo de fumaça. Ela encontrou Lucas na ala isolada, seus dedos sangrando enquanto forçava uma bateria de emergência para manter o respirador funcionando. Eles transferiram a jovem para a maca portátil, a vida dela dependendo de uma conexão precária enquanto o sistema de segurança, detectando a falha total, começava a travar as portas de aço dos corredores. Eles atravessaram o saguão no momento exato em que a PF isolava a entrada. O hospital, antes um santuário de lavagem de dinheiro, agora era uma cena de crime selada.
No estacionamento, sob a chuva fina, Elena entregou o drive ao Delegado Vargas. O nome de seu pai, manchado por anos de acusações falsas que Siqueira orquestrara, começava a ser limpo em tempo real conforme os portais de notícias recebiam os arquivos. O peso do drive se fora, mas o vazio em seu peito era maior. Ela observou o saguão através das vidraças, onde o relógio da torre, sincronizado com o servidor central, parou exatamente às 00:00. A caça de Siqueira terminara, mas Elena sabia que, lá fora, outros sistemas ainda operavam nas sombras. Ela não era mais uma investigadora; era um alvo, e a liberdade era apenas o início de uma nova contagem regressiva.