A Prova Final
O aríete pneumático golpeava a porta reforçada do necrotério com a cadência de um coração em taquicardia. Cada impacto fazia as gavetas de aço vibrarem, um tilintar metálico que sublinhava a urgência: 23 horas e 45 minutos para a auditoria. Elena Valente pressionava o corpo contra a superfície fria, sentindo o suor escorrer pela têmpera. O silêncio do hospital, antes um santuário de ordem, agora era uma armadilha.
— O download está em 95% — a voz de Lucas era um fio de desespero. Ele estava encolhido sob a luz azulada do terminal, os dedos trêmulos sobre o teclado. — Eles estão usando um aríete. Não vai aguentar mais dois minutos.
Elena olhou para o corredor através da fresta da porta. A polícia local, braço armado da fundação, não estava ali para manter a lei; estavam ali para apagar o rastro da execução de Heitor Medeiros. A prova digital, o arquivo que provava a lavagem de dinheiro e o homicídio, corria pelas entranhas do servidor de backup em direção ao drive USB no bolso de Elena. De repente, a sala mergulhou em escuridão absoluta. O monitor piscou e morreu.
— Siqueira cortou a energia do setor — Lucas soltou um ganido. — Ele sabe. Ele acabou de me mandar uma mensagem: se eu não entregar o drive, ele desliga os aparelhos da minha irmã na UTI. Ele tem o controle de tudo.
Elena não hesitou. O medo era um custo que ela não podia pagar. Ela tateou na penumbra até encontrar a bateria de emergência do desfibrilador portátil. Com as mãos firmes, conectou os cabos ao terminal, uma manobra técnica arriscada que poderia fritar o servidor, mas era a única chance. O monitor voltou a brilhar. 98%... 99%... 100%.
— Puxa o drive! — ordenou ela. Assim que o plástico tocou sua mão, o estrondo da porta cedendo ecoou pelo necrotério. A barreira havia caído.
Eles tentaram a fuga pelos dutos de ventilação, mas o bloqueio era total. Elena percebeu a armadilha: Siqueira estava usando o sinal do crachá de Lucas para guiá-los para um corredor sem saída. Sem hesitar, ela arrancou o crachá do peito do rapaz e o jogou dentro de um carrinho de lavanderia que seguia para o incinerador. O sinal disparou para o lado oposto, criando a distração necessária.
Eles alcançaram o saguão principal, apenas para encontrar a saída bloqueada por uma barricada de seguranças. Siqueira surgiu na varanda do segundo piso, sua silhueta imponente, um pilar de fé e corrupção. Ele desceu as escadarias, flanqueado por homens armados, com um sorriso que não chegava aos olhos.
— Elena, você está cometendo um erro irreparável — a voz de Siqueira ecoou, aveludada. — Entregue o drive. Não deixe que o desespero destrua o que você construiu.
Elena olhou para o relógio do saguão: 23 horas e 45 minutos. Ela viu a multidão de peregrinos chegando para a oração da madrugada, um mar de rostos devotos que Siqueira usava como escudo social. Ela ergueu o drive USB acima da cabeça, garantindo que as câmeras de segurança — e os fiéis — vissem. Se ele a tocasse ali, o escândalo seria impossível de conter. Siqueira hesitou, o ódio brilhando em seus olhos, mas recuou um passo. Elena aproveitou a brecha e mergulhou na massa de fiéis, desaparecendo no mar de mantos e orações enquanto o relógio da fundação continuava a marcar o fim de seu tempo.