O Jogo de Poder
O ar no escritório da diretoria do Hospital Alencar não era mais o mesmo. O perfume de Beatriz, uma mistura de jasmim e desespero, fora substituído pelo odor antisséptico e impessoal que Arthur impusera ao ambiente. Ele estava sentado na cadeira de couro que, até poucas horas atrás, era o trono da mulher que orquestrara sua ruína. Beatriz entrou sem bater, o salto alto estalando no mármore como uma sentença. Seus olhos, antes altivos, estavam injetados. Ela não olhou para a vista panorâmica de São Paulo; fixou-se nos documentos sobre a mesa: os registros digitais da sabotagem médica contra Mestre Elias.
— Você não tem o direito de estar aqui, Arthur — a voz dela falhou, um tremor que ela tentou disfarçar com uma rispidez mecânica. — O Consórcio Aeternitas é uma fachada. Você inventou isso para tomar o que não lhe pertence.
Arthur não se levantou. Ele girou a tela do computador, expondo a trilha de transferências que conectava o hospital ao Consórcio e, finalmente, à conta pessoal de seu tio, Henrique Valente. O silêncio foi preenchido apenas pelo zumbido do ar-condicionado. A ficha de Beatriz caiu com o peso de uma estrutura de aço: ela não era apenas uma executiva sendo demitida; ela era a peça sacrificável no tabuleiro de um homem muito mais perigoso que Arthur.
No saguão, o cenário era de tensão absoluta. Roberto Valença, o magnata cujos investimentos eram a última tábua de salvação de Beatriz, caminhava pelo mármore com a arrogância de quem ainda acreditava ser o dono do tabuleiro. Ao vê-lo, Beatriz tentou recompor a postura, mas o tremor nas mãos a denunciava. Arthur desceu as escadas lentamente. Quando parou a poucos metros do magnata, estendeu o tablet com a interface do Fundo de Credores Soberanos aberta.
— O Fundo não apenas bloqueou os ativos do Alencar, Roberto — Arthur disse, a voz calma. — Ele confiscou as garantias pessoais que você usou para alavancar essa dívida. Se você apoiar Beatriz agora, a falência técnica dela será estendida à sua holding em menos de uma hora.
Valença parou, o olhar gélido fixado no rosto da herdeira. Ele não a defendeu. Ele olhou para o nada, avaliando o custo de um ativo podre. O magnata virou as costas para Beatriz, retirando o suporte financeiro que a mantinha no topo. Ela ficou sozinha no centro do saguão, isolada enquanto Valença negociava diretamente com Arthur, ignorando sua existência.
Após a saída de Valença, Arthur retirou-se para a sala de servidores. O ar ali era gélido. Um sinal de alerta soou — um som agudo, metálico, que vibrou nos ossos de Arthur. A tela piscou, substituindo os dados financeiros por uma interface de comunicação criptografada: “Você sempre foi impaciente, Arthur. O hospital é um peão, mas o tabuleiro é meu.” A mensagem estava assinada por 'H'. Henrique Valente estava vivo, observando cada clique, transformando o hospital em uma armadilha pessoal.
Beatriz retornou para uma última tentativa de barganha, encontrando Arthur inabalável. Ela assinou a renúncia formal, a mão trêmula manchando o papel como uma ferida aberta.
— Você acha que venceu porque tomou o controle administrativo? — ela murmurou, a voz cortante enquanto se virava para sair. — O conselho de administração não aceitará um estranho. Eles vão sabotar cada movimento seu, Arthur. Você nunca terá o controle total deste lugar.
Arthur observou a silhueta dela desaparecer. A derrota dela era apenas o prelúdio. A guerra contra Henrique Valente mal começara, e o hospital, agora sob seu comando, era o campo de batalha onde a linhagem dos Valente seria finalmente decidida.