Sombras na Diretoria
O ar na UTI do Hospital Alencar não era apenas antisséptico; era denso, carregado com o cheiro metálico de uma execução silenciosa. Arthur Valente caminhava pelo corredor, seus passos ecoando como uma contagem regressiva. O médico plantonista, um homem de jaleco impecável e postura arrogante, tentou bloquear sua passagem.
— O acesso à ala privada foi revogado por ordem da administração, senhor Valente. O senhor não tem autorização — disparou o médico, o crachá tremendo levemente sob o olhar gélido de Arthur.
Arthur não parou. Com um movimento fluido, conectou seu tablet à rede interna. A tela projetou o novo organograma: o nome de Beatriz Alencar fora riscado, substituído pela sigla do Consórcio Aeternitas. O médico empalideceu ao ver o sistema responder instantaneamente ao comando de Arthur. A autoridade não era mais uma sugestão; era o código-fonte do hospital.
— O prontuário de Mestre Elias. Agora — ordenou Arthur.
Ao analisar os dados, a frieza de Arthur deu lugar a um foco predatório. Os níveis de potássio no sangue de Elias não eram falência orgânica; eram uma assinatura. Uma dosagem calculada para simular um infarto natural. O envenenamento era uma execução deliberada, uma tentativa de silenciar o único homem que conhecia a verdadeira linhagem dos Valente.
Minutos depois, no décimo segundo andar, o silêncio na sala de diretoria era absoluto. Beatriz Alencar, outrora a executiva implacável, estava encolhida contra a poltrona de couro italiano. Diante dela, o magnata Roberto Valença — o maior investidor do consórcio — tamborilava os dedos sobre a mesa de mogno, o som funcionando como o martelo de um leilão que selava o destino de Beatriz.
Arthur entrou sem bater. Sua presença alterou a pressão atmosférica da sala.
— O aporte que prometi não virá, Beatriz — disse Valença, sem desviar o olhar do tablet onde os dados de falência técnica brilhavam em vermelho. — Seu nome é sinônimo de fraude. Eu não jogo capital em navios afundando.
Beatriz tentou se recompor, a voz trêmula. — Isso é uma manobra temporária. Eu ainda tenho o controle...
— Você não tem nada — interrompeu Arthur, depositando um envelope pardo sobre a mesa. — Você foi destituída. A gestão agora é minha.
Beatriz riu, um som seco, mas o riso morreu quando Arthur abriu o envelope. Eram as provas de que o Consórcio Aeternitas não era apenas uma empresa, mas uma fachada. No subsolo, Arthur encontrou o elo perdido: um técnico de laboratório, trêmulo, tentava apagar os registros de dosagem. Arthur subjugou o homem com uma economia de movimentos que beirava a crueldade, forçando-o a entregar o arquivo digital que ligava a toxina diretamente ao Consórcio.
De volta ao seu escritório, Arthur observou a tela do terminal principal. O cursor pulsava como um batimento cardíaco eletrônico, expondo a assinatura digital de Henrique Valente. O tio que todos acreditavam morto há uma década era o arquiteto por trás de tudo. A fachada de 'homem comum' de Arthur não era mais uma armadura; era uma arma. Ele olhou para o monitor e viu a notificação final: Roberto Valença acabara de retirar todas as linhas de crédito remanescentes de Beatriz. Ela estava isolada, uma rainha sem reino.
Arthur fechou o punho sobre o tablet. Henrique pensava que o hospital era o alvo, mas Arthur sabia a verdade: o leilão de ativos era apenas o prelúdio. A guerra pela linhagem Valente começara, e o próximo nome na lista de liquidação não seria de uma empresa, mas de seu próprio tio.