O Banquete da Vingança
O escritório de Arthur não era um refúgio, mas uma câmara de pressão. Sobre a mesa de mogno, o dossiê da dívida tóxica dos Alencar — um emaranhado de ativos podres e desvios contábeis — repousava como uma sentença assinada. Mestre Jader entrou sem bater, a gravidade em seu semblante confirmando que o cerco estava completo.
— O convite está garantido, Arthur — Jader disse, deslizando um envelope de veludo escuro. — O Grupo Sampaio não apenas abriu as portas; eles exigiram sua presença como convidado de honra. Beatriz não terá como barrar sua entrada sem declarar guerra aberta contra o maior rival comercial de sua família. Ela está isolada.
Arthur abriu o envelope. O convite para o evento beneficente de gala da elite paulistana era o altar onde Beatriz pretendia anunciar sua recuperação de prestígio. Ela não fazia ideia de que o altar estava sendo desmontado. Jader retirou um segundo documento, um pergaminho com o selo de cera da linhagem Valente, ainda quente ao toque.
— A prova definitiva — continuou Jader. — O terreno onde a sede da Casa Alencar foi erguida nunca lhes pertenceu. Foi uma concessão de terras roubada após a queda dos Valente. Rafael assinou a transferência. O documento é inquestionável e a justiça não poderá ignorar a sucessão legítima.
*
O mármore do salão de gala no Hotel Fasano vibrava sob o peso de tensões invisíveis. Arthur cruzou as portas duplas não como o homem que a elite costumava ignorar, mas como uma sombra que finalmente ganhara densidade. Ao seu lado, Ricardo Bittencourt, o magnata do Grupo Sampaio, caminhava com uma deferência que fez o ar no recinto estagnar. O burburinho morreu instantaneamente.
Beatriz Alencar estava próxima à coluna central, sua taça de cristal tremendo levemente. Ela viu Arthur e o sorriso de porcelana que sustentava congelou. Ela se aproximou, os passos rápidos, o rosto pálido sob a maquiagem impecável.
— O que você está fazendo aqui, Valente? — ela sibilou, ignorando Bittencourt. — Este é um evento privado. Seus débitos na praça deveriam mantê-lo bem longe das luzes.
Arthur parou, ajustando os punhos de sua camisa com uma calma que parecia uma ofensa pessoal. O silêncio ao redor deles era absoluto. Investidores que, horas antes, disputavam o privilégio de financiar os projetos de Beatriz, começaram a se afastar, criando um círculo de vácuo social ao redor da herdeira.
— O jogo mudou, Beatriz — Arthur respondeu, sua voz um corte frio no ar denso. — Você não é a dona deste salão. Você é apenas a próxima na fila para a liquidação. O Grupo Sampaio não veio para celebrar; eles vieram para testemunhar a dissolução da sua casa.
Beatriz tentou manter a pose, mas o desespero em seus olhos era uma rachadura na armadura. Ela olhou para o organizador do evento, buscando apoio, mas o homem apenas desviou o olhar, ciente de que a dívida dos Alencar estava agora sob o controle absoluto de Arthur.
*
No ápice da noite, Arthur subiu ao palco. Não houve música de entrada, apenas o silêncio que se espalhou como uma mancha de óleo. Rafael, observando de um canto, tentou avançar, mas dois homens de terno, contratados pelo consórcio de credores de Arthur, bloquearam seu caminho com uma frieza mecânica.
Arthur estendeu o envelope selado ao leiloeiro. O homem, cujas mãos tremiam, abriu o lacre de cera e leu as primeiras linhas. A cor drenou de seu rosto. Ele olhou para a plateia, depois para Beatriz, cujos joelhos pareciam ceder.
— Senhoras e senhores — o leiloeiro anunciou, a voz falhando — este documento prova que a mansão dos Alencar, e todos os ativos vinculados a este terreno, pertencem por direito legal de sucessão à linhagem Valente. A partir de hoje, a Casa Alencar não é mais proprietária de seu próprio teto.
Beatriz desabou contra a coluna, vendo seu mundo ruir sob o peso de uma verdade que ela tentara esconder por anos. Arthur não precisou de gritos ou ameaças. Ele apenas observou a elite paulistana, agora silenciosa, reconhecer o verdadeiro dono da linhagem. O jogo da vingança tinha apenas começado.