Sombras da Família
A porta de mogno da sala de segurança fechou-se com um baque seco, isolando Arthur e o Mestre Jader do burburinho frenético do saguão. Lá fora, o nome da Casa Alencar desmoronava sob o peso das provas que Arthur acabara de expor. O ar na sala era denso, carregado com o cheiro de papel antigo e a eletricidade de uma vitória que não trazia alívio, apenas uma clareza fria. Jader, com as mãos trêmulas, estendeu um envelope lacrado com o selo da linhagem.
— A jade imperial é sua por direito, Arthur. Mas o que está aqui dentro… é o que realmente custou o seu legado — murmurou o velho.
Arthur abriu o envelope. Seus olhos percorreram registros de auditoria forjados e, finalmente, a assinatura que validava a ruína da sua família. O sangue em suas veias pareceu congelar. O nome no topo do documento de liquidação dos ativos Valente era Rafael. O homem que ele considerava um irmão, o único que tinha a senha de sua confiança e acesso direto aos cofres da empresa.
— Ele não apenas roubou a empresa — Jader disse, a voz um sussurro no silêncio. — Ele orquestrou a queda para garantir que a linhagem Dragão nunca mais tivesse assento na diretoria. Rafael é quem sustenta a fachada de Beatriz hoje.
Arthur fechou o arquivo. A traição não era apenas um golpe financeiro; era uma ferida que ele precisaria cauterizar com a destruição total da estrutura de poder de Rafael, pedra por pedra.
Ao saírem da sala, o corredor de serviço cheirava a concreto úmido. Três homens bloqueavam a passagem. O líder, com uma cicatriz vertical no supercílio, deu um passo à frente.
— A patroa quer o que você tirou daquela mesa, Valente. Entregue o arquivo ou saia daqui em uma ambulância.
Arthur não sentiu raiva, apenas a frieza de quem já viu impérios caírem. Ele entregou o envelope a Jader.
— Afaste-se, Mestre.
O primeiro agressor avançou. Arthur esquivou-se com uma fluidez que desafiava a lógica, travando o pulso do homem antes de girá-lo em um ângulo antinatural. Com um movimento seco, desferiu um golpe preciso no plexo solar do segundo, que caiu sem ar. O terceiro recuou ao encontrar o olhar gélido de Arthur. A humilhação da derrota física diante de Jader foi suficiente para desmantelar a confiança do grupo. Eles recuaram, deixando o caminho livre.
Horas depois, no escritório improvisado nas sombras do distrito financeiro, a tela de Arthur exibia o gráfico de sangria da Casa Alencar. A queda de Beatriz, deflagrada no leilão, era um colapso sistêmico. Suas ações despencavam.
Arthur acessou o sistema de débitos interbancários. O arquivo selado era uma chave mestra para desbloquear as dívidas ocultas da Casa Alencar. Ele não queria apenas vencer Beatriz; ele queria comprar a coleira que a prendia ao mercado, peça por peça.
O telefone tocou. Era um dos seus contatos na diretoria.
— Arthur, você precisa ver a nova ata. Rafael acaba de assumir o controle total dos ativos que restaram. Ele está liquidando os últimos bens da sua família para se blindar.
Arthur sentiu o peso da realidade. O traidor não estava escondido; ele estava sentado na cadeira que um dia foi de seu pai, usando o nome de Arthur para legitimar o saque final. A vingança, antes focada em Beatriz, agora tinha um rosto que ele conhecia melhor do que o próprio espelho.