O Martelo da Justiça
O ar no salão de leilões da Avenida Paulista estava denso, carregado com o cheiro de sândalo e o peso de fortunas construídas sobre areia movediça. Ricardo Viana, no centro do palco, ajustava suas abotoaduras de ouro com a arrogância de quem acreditava que o mundo era seu espelho. O leiloeiro, um homem de voz aveludada e ética flexível, mantinha o martelo suspenso sobre a relíquia Valente.
— Dez milhões de reais. A última oferta pelo jade imperial da linhagem Valente — anunciou o leiloeiro, os olhos varrendo a plateia em busca de um último lance. — Ninguém supera o senhor Viana?
Arthur Valente não esperou por um convite. Ele caminhou pelo corredor central, o passo firme, despojado de qualquer hesitação. Dois seguranças de terno sob medida interceptaram seu caminho, mas Arthur nem sequer diminuiu a velocidade. Ele tocou o painel de acesso lateral, uma interface que ele mesmo projetara anos atrás, quando a empresa ainda carregava seu sobrenome. O sistema reconheceu a frequência biométrica que Ricardo nunca conseguira apagar. Um clique metálico ecoou pelo salão, e as portas internas se abriram, revelando Arthur ao centro da elite paulistana.
O silêncio que se formou foi absoluto. Ricardo, com o martelo ainda em punho, manteve um sorriso gélido que vacilou ao ver o tablet que Arthur depositou sobre a mesa de mogno.
— O seu jogo de espelhos acabou, Ricardo — a voz de Arthur era um bisturi, cortando o ruído ambiente. Ele deslizou o dedo pela tela, projetando o contrato de cessão de direitos de Helena, assinado sob coação, diretamente no telão de alta definição. — O jade que você leiloa é uma falsificação industrial. E este documento? É o registro da sua ruína.
Um murmúrio instável percorreu a sala, transformando-se em um burburinho de choque. Ricardo tentou se recompor, mas sua mão tremeu. Ele olhou para os seguranças, mas Arthur já havia bloqueado os protocolos de acesso ao sistema de som e imagem da casa, um trunfo que ele guardara desde o exílio.
— Saia da minha cadeira, exilado — sibilou Ricardo, voz baixa, contida pelo terror de ser exposto.
Arthur não respondeu. Ele estendeu a mão e tocou o encosto da cadeira de couro negro que Ricardo ocupava como trono. O gesto foi deliberado, uma apropriação de espaço que não admitia réplica. Ricardo avançou, pronto para o empurrão que tentaria restaurar sua autoridade, mas parou a meio caminho, atingido pela calma letal de Arthur.
— Você deve à família Valente exatamente trinta e sete milhões e duzentos mil reais — disse Arthur, num sussurro que o microfone amplificou para todo o salão. — Valor atualizado, com juros compostos. O martelo do leiloeiro não vai bater para você hoje.
O leiloeiro, pressionado pela prova inegável projetada atrás de si, anunciou a suspensão imediata do lote. Ricardo Viana, pálido e isolado, viu os investidores recuarem, ignorando-o para se aproximarem de Arthur, que agora ocupava o centro do palco.
Arthur caminhou até o hall de saída, o contrato de Helena guardado no peito como uma lâmina. Antes que pudesse alcançar a rua, um homem de terno escuro surgiu, entregando um envelope selado com lacre de cera negra.
— O observador do terceiro andar manda lembranças. Disse que o senhor não precisou levantar a voz para fazer o martelo bater do lado errado.
Arthur quebrou o lacre. Dentro, um cartão com a caligrafia manual: “Parabéns pela primeira cadeira reconquistada. O jogo de Ricardo era pequeno. O meu não. Avenida Paulista, 1842, 23h. Venha sozinho. Traga o jade falso se quiser provar que entende de linhagens.”
Não havia nome, apenas o selo de um dragão estilizado enrolado em forma de infinito. Arthur encarou o convite, sabendo que a guerra contra Ricardo era apenas o prelúdio de algo muito mais perigoso.