O Ranking Era Apenas o Início
O Ferrugem não aterrissou; ele colapsou. O estrondo do metal contra o concreto da Arena Principal foi o som de uma estrutura de poder sendo estilhaçada. Kaelen ejetou o cockpit, o ar frio da arena cortando o suor que encharcava seu traje de piloto. Seus nervos, ainda vibrando com o feedback neural residual do módulo experimental, dispararam em espasmos de dor.
Acima dele, os telões gigantes da arena, antes dominados pelas estatísticas de Vane, agora exibiam em loop os logs de manutenção falsificados e as transações financeiras que provavam a corrupção do Comandante. A multidão, que segundos antes exigia sua destruição, agora rugia seu nome. Era um som visceral, faminto, o som de uma hierarquia sendo reescrita em tempo real.
— Sua carreira termina aqui, Vane — Kaelen projetou a voz, a garganta seca, mas o tom cortante o suficiente para ser captado pelos microfones da arena.
O Comandante Vane, pálido sob a iluminação impiedosa, tentou ordenar a intervenção da guarda. Foi inútil. A autoridade institucional que ele exercia evaporou diante da evidência pública. A multidão, sentindo o cheiro de sangue político, avançou contra as barreiras. Vane foi arrastado para fora do palco, não por ordem, mas pela maré humana que ele tentara controlar. Kaelen sentiu uma pontada aguda na têmpora; a fusão com o módulo era uma faca de dois gumes, e o custo físico daquela sobrecarga começava a cobrar seu preço.
Na oficina de Sora, o cheiro de ozônio e metal queimado era um lembrete constante da fragilidade de seu sucesso. Kaelen soltou os grampos neurais, sua visão oscilando entre borrões de neon. O Ferrugem estava ancorado no centro do hangar, as placas de blindagem marcadas por estresse térmico, o núcleo pulsando com uma luz âmbar descompassada.
— Você está se autodestruindo — Sora afirmou, sem tirar os olhos do terminal. — O chassi está com 12% de integridade. Mais um impacto e você não será um herói, será sucata. — Ela projetou um holograma sobre a carcaça do mech: um convite oficial da Liga Superior, com o selo dourado brilhando com uma autoridade predatória. — Você acha que subir no ranking é o destino? Isso não é um prêmio, Kaelen. É uma armadilha. A elite quer o seu módulo, não a sua habilidade.
Kaelen limpou o sangue que escorria de seu nariz, observando o convite. O Expurgo aconteceria em 29 dias. O Campo de Provas era apenas um celeiro, e ele acabara de ser promovido para a próxima rodada de abate.
O ambiente na Torre de Comando da Elite era estéril, filtrado e opressor. Kaelen caminhou pelo corredor de obsidiana até ser parado por um Representante dos Clãs. O homem, cujas vestes custavam mais que a dívida de uma vida, não sorriu.
— O 'prodigioso' Kaelen — o Representante iniciou, a voz desprovida de humanidade. — Você causou um terremoto. Vane era um incompetente, mas era o nosso incompetente. Sua exposição foi inconveniente.
Kaelen sentiu o zumbido do módulo em seu córtex, uma frequência que não pertencia àquela era. Ele não recuou. — Vane era um ladrão. E eu não estou aqui para pedir desculpas. Estou aqui para cobrar o que me é devido.
Enquanto forçava o acesso aos logs da torre, a revelação atingiu Kaelen como um soco: o Expurgo não era apenas o fechamento do Campo. Era uma purga deliberada para eliminar pilotos que não tivessem a capacidade técnica de se fundir com o próximo nível de tecnologia. Ele estava sendo caçado pela própria estrutura que o convidara.
Sozinho em seu novo alojamento, Kaelen olhou para o horizonte industrial. O relógio avançava implacável. Ele tinha 29 dias para subir três níveis de poder, ou o sistema o descartaria como lixo. A vitória de hoje fora apenas um vislumbre do que era necessário. O convite para a elite chegou, mas o brilho dourado do selo era, na verdade, o reflexo de uma sentença. Kaelen sabia que o verdadeiro inferno começaria agora.