A Dívida Cobrada
O cheiro de ozônio e metal queimado ainda impregnava o hangar quando Kaelen retornou do ringue. O silêncio que o recebeu não era de triunfo, mas de caçada. Sora estava de joelhos no piso de grade, as mãos presas por algemas magnéticas que zumbiam com uma carga de alta voltagem. Dois seguranças de Vane, com armaduras opacas, reviravam sua bancada. O drive de dados, a única evidência capaz de quebrar a espinha dorsal da operação de Vane, pesava no bolso interno da jaqueta de Kaelen como uma sentença de morte.
— Sabotagem técnica sob pretexto de manutenção não autorizada — o segurança líder declamou, a voz distorcida. — A mecânica será levada ao isolamento. O chassi, o 'Ferrugem', será confiscado para perícia.
Kaelen sentiu o sangue pulsar. Com apenas 8% de integridade, qualquer tentativa de força resultaria em desmantelamento total. Ele deu um passo à frente, sua presença forçando os seguranças a um impasse.
— Protocolo 4-B do Campo de Provas — a voz de Kaelen cortou o ar. — Técnicos vinculados a pilotos com rank ativo em período de torneio possuem imunidade diplomática. Se tocarem nela, o sistema registrará uma violação de nível dois. Vane pode me odiar, mas ele não pode ignorar o sistema que o mantém no cargo.
Os seguranças hesitaram. Um sinal de rádio ecoou em seus capacetes. Eles recuaram, mas o aviso foi claro: a próxima falha seria a última.
Minutos depois, escondidos nas sombras do Ferrugem, a dupla analisava o drive. O brilho azulado da tela iluminava o rosto exausto de Sora.
— Vane não está apenas desviando fundos — disse ela, a voz cortante como um bisturi. — Ele está vendendo componentes críticos de pilotos de baixo rank no mercado negro para financiar a elite. É por isso que o Ferrugem está caindo aos pedaços. Ele sabota a integridade para justificar o sucateamento.
Kaelen sentiu o peso da revelação. Se denunciasse Vane agora, a auditoria fecharia o Campo de Provas em horas. A corrupção acabaria, mas sua ascensão, sua única chance de quitar os 200 mil créditos de dívida e sobreviver ao Expurgo em 29 dias, evaporaria. Ele seria descartado antes de provar seu valor.
— Não podemos agir agora — Kaelen decidiu, os dedos roçando o módulo experimental. — Se eu destruir Vane, perco a escada. Preciso subir de rank primeiro.
Antes que pudessem planejar, a voz de Vane reverberou pelo hangar. O comandante desceu a passarela com a calma de um predador. Ao seu lado, um piloto de elite em um Vanguard polido aguardava o sinal.
— Você acha que uma vitória na arena lhe dá imunidade? — Vane sorriu. — Sua dívida de 200 mil créditos é o peso que vai enterrar você. Aceite o duelo ou entregue as chaves agora.
Kaelen entrou no Ferrugem. O chassi gemia a 8% de integridade. Ele não lutou com força bruta; esperou o momento exato em que o Vanguard avançou e ativou a sobrecarga experimental. O módulo drenou a estrutura do Ferrugem, mas o pulso eletromagnético desabilitou os sistemas do rival instantaneamente. O público foi ao delírio. Vane, acuado pela vitória e pela pressão dos investidores, não teve escolha a não ser autorizar a promoção de Kaelen.
Na plataforma de acesso ao nível superior, Kaelen parou. À sua frente, o teto do Campo se abriu, revelando a elite. Os mechs ali faziam o Ferrugem parecer um brinquedo de sucatas. O drive de dados queimava em seu bolso. Ele tinha o poder de destruir Vane, mas o acesso ao nível superior era o início de uma nova realidade. Ele guardou o drive. A guerra contra Vane seria travada lá em cima, onde o poder era real.