A Engenharia do Impossível
O hangar 4 cheirava a ozônio e metal queimado, um odor que Kaelen agora associava ao sabor da sobrevivência. O Ferrugem não era mais apenas uma carcaça; sob as mãos de Sora, ele havia se tornado um organismo de placas desalinhadas e cabos expostos. O painel de telemetria oscilava em um vermelho agressivo: 12% de integridade estrutural.
— Kaelen, pare! — a voz de Sora estalou no comunicador, seca como um curto-circuito. — O acelerador cinético não é apenas uma peça; é um parasita de uma era proibida. Ele está devorando a estrutura do chassi para sustentar o impulso. Se você ativar isso, o Ferrugem vai se desintegrar em dez segundos.
Kaelen olhou para o visor de dívida: 200.000 créditos. O número era uma sentença de morte imposta por Vane, uma barreira que transformava sua ascensão em uma piada de mau gosto. Ele tinha 29 dias antes do Expurgo. Sem o módulo, ele era apenas um sucateiro esperando o fim.
— Se eu não usar, o Expurgo me leva de qualquer jeito — Kaelen respondeu, travando os dissipadores de calor. — Deixe que devore.
O módulo vibrou, fundindo-se ao núcleo com um guincho metálico que ecoou pelo hangar. O Ferrugem estremeceu, placas de blindagem rangendo sob uma pressão molecular impossível. Para estabilizar a mutação, ele precisava de um núcleo de alta densidade. O Setor de Descarte Radioativo era o único lugar onde tal peça poderia ser encontrada, um cemitério onde a radiação ionizante fritava sistemas comuns em segundos.
Kaelen forçou a máquina para fora. O ambiente era uma névoa tóxica de poeira metálica. À frente, entre pilhas de titânio, brilhava o núcleo de um modelo de combate da era pré-expurgo. Um drone de patrulha da administração de Vane zuniu acima, seus holofotes cortando a névoa. Kaelen engatou a sobrecarga. O mundo se distorceu. Por dez segundos, o tempo esticou enquanto o módulo drenava a integridade da perna esquerda do Ferrugem para alimentar um impulso de velocidade que desafiava a física. Ele arrancou o núcleo com uma garra hidráulica e recuou, deixando apenas um rastro de faíscas e metal fundido.
Ao retornar, o confronto era inevitável. O escritório de Vane era um santuário de frieza e burocracia.
— O Setor de Carga 7 não é lugar para testes, Kaelen — Vane disse, tamborilando os dedos sobre o tablet. — Aceleração cinética impossível. O que você instalou?
— Manutenção necessária, Comandante — Kaelen manteve a voz firme, ignorando o tremor causado pelo feedback do módulo. — Se o senhor quer questionar a engenharia, deveria focar nos clãs que fornecem peças defeituosas.
Vane sorriu, um gesto sem calor. — Você tem 24 horas. Amanhã, na arena, prove que isso não é sucata ilegal ou perca tudo.
Na arena, o público rugia. O Ferrugem, com suas novas placas de metal fundido em um padrão estranho, parecia um predador pronto para o bote. Vane observava do camarote, os dedos cravados no parapeito. Quando o oponente de elite, um Vanguard, avançou, Kaelen não reagiu com técnica convencional. Ele ativou a aceleração. O mundo parou. Kaelen viu o Vanguard suspenso no ar, um monumento de metal lento, enquanto ele deslizava entre seus ataques com uma fluidez aterradora. A peça de aceleração cinética começou a vibrar violentamente. O Ferrugem não estava apenas consertado; estava mudando. O público, pela primeira vez, ignorou o Comandante para clamar o nome de Kaelen.