Sucata com Alma, Piloto sem Amanhã
O cheiro de ozônio e metal queimado era o perfume da ruína, e Kaelen o inalava como se fosse oxigênio. Dentro da cabine do 'Ferrugem', um mech de reconhecimento tão surrado que a pintura original era apenas uma memória, a luz vermelha do painel de dívida pulsava no ritmo do seu coração acelerado. Ele tinha três minutos até que o leiloeiro do Campo de Provas encerrasse o pregão de ativos. Se não atingisse a cota de performance, o chassi seria confiscado e desmontado para pagar os juros abusivos que herdara do nome da família.
— Kaelen, o sistema de resfriamento está em colapso. Se você forçar mais uma manobra de alta aceleração, o núcleo vai virar uma granada — a voz de Sora soou pelo canal fechado, cortante. Ela estava no centro de controle, observando o desastre através das câmeras de vigilância.
— Se eu não forçar, o Vane vai me arrastar para fora daqui em dois minutos — Kaelen respondeu, os dedos calejados dançando sobre os gatilhos manuais. Ele sentia a vibração do chassi sob seus pés; era uma estrutura que implorava por misericórdia, mas ele não podia se dar ao luxo de ser gentil. Na arquibancada, as luzes dos painéis de ranking brilhavam como olhos famintos. O Comandante Vane estava lá, em sua plataforma elevada, observando a humilhação pública de Kaelen com um desdém que parecia uma sentença de morte. Vane não queria apenas o mech; ele queria apagar o último vestígio da linhagem de Kaelen daquela arena.
O 'Ferrugem' chocou-se contra a plataforma de testes, um tremor que subiu pela espinha. O operador de arena, uma voz gélida e impessoal, ecoou pelos alto-falantes: — Aumentando a carga para 120%. Estabilidade do chassi: crítica. Risco de desintegração: iminente.
Kaelen cerrou os dentes. O visor do cockpit piscava em vermelho, exibindo um contador de dívida que subia a cada segundo de operação. Se o Ferrugem cedesse, ele não perderia apenas a máquina; ele perderia a licença de piloto, o que equivalia a uma sentença de morte por trabalho forçado nos reatores. Ele precisava daquele crédito. Precisava provar que a carcaça ainda tinha serventia.
Foi então que o log de dados, escondido sob camadas de criptografia obsoleta no sistema de navegação, saltou para a tela principal. Não era um erro. Era um protocolo de emergência, uma assinatura de energia que não deveria existir em um mech de classe baixa. O módulo experimental, um vestígio do passado glorioso de sua família, estava finalmente respondendo ao estresse térmico.
— O que você é? — sussurrou Kaelen, os olhos arregalados enquanto o código se desenrolava em uma cascata de dados proibidos. O ar no interior da cabine estava saturado com o cheiro acre de isolamento queimado. Ele sentia cada vibração do chassi como se fossem espasmos em seu próprio corpo.
— Kaelen, se você não estabilizar o núcleo agora, o sistema de segurança vai confiscar o chassi automaticamente. Eles não querem o robô, querem a carcaça para o leilão de sucata! — Sora gritou, sua voz falhando pela primeira vez.
Kaelen ignorou o medo que tentava paralisar seus dedos. Ele mergulhou nos logs de dados que haviam surgido na tela de HUD. Entre linhas de código corrompidas e avisos de obsolescência, uma sub-rotina brilhava com uma assinatura de energia proibida: um módulo de sobrecarga experimental. Era uma relíquia, algo que não deveria estar ali, escondido sob camadas de ferrugem e descaso.
— Eu encontrei algo, Sora — Kaelen respondeu, a voz rouca pelo esforço de manter o mech de pé enquanto os atuadores hidráulicos rangiam em protesto. — O módulo está conectado. Ele não está morto, está apenas dormente.
O log do módulo revelou uma sobrecarga de energia. Se Kaelen a liberasse, ele venceria — mas o chassi poderia explodir. Do outro lado da arena, o Comandante Vane observava das sombras, anotando o número de série do mech de Kaelen. O alvo estava marcado.