A Última Defesa
O ar na sala de servidores era gelado, carregado com o zumbido metálico das ventoinhas e o cheiro de ozônio. Lucas Viana sentia o suor escorrer pela espinha, um contraste brutal com a temperatura controlada do ambiente. Na tela, a barra de progresso do protocolo V-92 oscilava: 82%. Era uma agonia digital. Cada byte enviado era um prego no caixão da carreira de Mendes, mas também um passo em direção ao seu próprio fim.
Lá fora, o som de botas táticas contra o granito do corredor não era mais um rumor; era uma contagem regressiva. A segurança do hospital não estava apenas patrulhando; eles estavam limpando a cena.
— Lucas, saia daí agora! — A voz do Diretor Mendes, distorcida pelo rádio de um dos seguranças, ecoou pelo corredor. — O protocolo de contenção está ativo. Qualquer resistência será tratada como ameaça à integridade da instituição.
Lucas ignorou. Seus dedos, trêmulos, forçavam o teclado. Ele precisava sacrificar suas últimas credenciais de auditor para manter a conexão aberta. O firewall do hospital rugiu, tentando derrubar o túnel de dados, mas o fluxo já estava espelhado em servidores internacionais. 94%.
O estrondo da porta sendo arrombada veio como um trovão. O metal rangeu, dobrando-se sob o impacto de um aríete. Quando a porta finalmente cedeu, dois seguranças, homens cujos rostos eram máscaras de indiferença institucional, avançaram. Lucas não se moveu até que o ícone de 'Upload Finalizado' brilhasse em verde na tela. Ele sentiu o impacto do taser nas costas antes mesmo de conseguir se levantar. A descarga elétrica transformou seus músculos em vidro, e o chão frio da sala de servidores subiu ao encontro de seu rosto.
O segurança chutou o teclado para longe e imobilizou Lucas, pressionando um joelho contra sua coluna, forçando o ar para fora de seus pulmões. Segundos depois, Mendes entrou na sala. Ele não parecia o pilar da comunidade hospitalar; sua gravata estava frouxa, os olhos injetados de adrenalina. Ele caminhou até o terminal, verificando a tela com uma fúria contida.
— Onde está o original? — Mendes rosnou, agarrando Lucas pelo colarinho e forçando-o a olhar para ele. — Aquela cópia digital é lixo. Um erro de sistema que vamos corrigir em minutos. Onde está o prontuário físico?
Lucas cuspiu sangue no chão. — Tarde demais, Mendes. O V-92 não era só sobre a Helena. Eu enviei a lista completa. Centenas de nomes. O hospital não é mais um segredo; é um caso de polícia. Os investidores já estão recebendo os arquivos.
Como se em resposta, o celular de Mendes vibrou incessantemente no bolso. O Diretor olhou para a tela e empalideceu. O suporte financeiro do hospital, o cordão umbilical que mantinha sua autoridade, estava sendo cortado em tempo real. O pânico, antes contido, transbordou em seus olhos.
— A cirurgia — Mendes sussurrou, a voz subitamente gélida. — Se não podemos esconder o erro, vamos enterrar a evidência biológica. Levem-no. E acelerem o procedimento da ala cirúrgica. Agora!
Lucas foi arrastado pelo corredor. A chuva lá fora, que castigava a cidade há dias, parou subitamente, deixando um silêncio opressor. No saguão, viaturas da polícia começavam a chegar, atraídas pelo vazamento de dados. Mas o tempo de Lucas não era o tempo da lei. Ele viu Helena sendo levada em uma maca para o centro cirúrgico. Ela estava consciente, seus olhos encontrando os dele por um breve segundo antes que as portas duplas se fechassem. O choque anafilático, induzido pelo protocolo, era apenas uma questão de minutos. Enquanto os policiais cercavam Mendes no corredor, Lucas percebeu com horror que, embora a verdade tivesse sido revelada, o preço daquela vitória estava sendo pago, batida a batida, pelo coração de sua irmã.