Protocolo de Extermínio
O terminal de manutenção da ala de TI não apenas negou o acesso de Lucas; ele cuspiu sua sentença de morte. Em letras vermelhas, o sistema de auditoria do hospital exibia: ACESSO REVOGADO. USUÁRIO: VIANA, LUCAS. STATUS: DESCARTÁVEL. O relógio digital na parede, conectado à espinha dorsal do servidor, marcava 47 horas e 59 minutos para a purga definitiva. Lucas sentiu o estômago revirar. Ele não era mais um funcionário; era um erro de sistema a ser corrigido antes da auditoria final.
Passos pesados ecoaram no corredor de serviço. Ele não podia ficar ali. Com as mãos trêmulas, tentou um bypass com a chave que Helena lhe entregara, mas o sistema respondeu com uma trava de segurança total. O hospital estava limpando os rastros em tempo real. Lucas saiu da sala de servidores, o coração martelando contra as costelas, apenas para ver, no final do corredor, a maca de Helena sendo empurrada em direção à rampa de emergência. Ela estava pálida, com os olhos vidrados, mas, ao avistá-lo, sua mão se moveu, tentando agarrar a grade lateral.
— Parados! — Lucas gritou, correndo pelo porcelanato polido. Ele bloqueou o caminho da equipe, sentindo a adrenalina queimar seus pulmões. O Dr. Mendes surgiu logo atrás, acompanhado por dois seguranças. O médico ajeitou o jaleco, o olhar destilando uma desumanidade calculada.
— Viana, você não é mais um funcionário deste hospital — Mendes disse, a voz calma, cortante. — Sua presença aqui é uma violação de propriedade privada. Helena está sendo transferida para uma unidade de cuidados paliativos. É o procedimento padrão para pacientes que atingiram o limite do protocolo experimental.
— O protocolo V-92 não é um tratamento, é uma sentença — Lucas rebateu, tentando se aproximar de Helena.
Helena, em um momento de lucidez cortante, sussurrou enquanto os enfermeiros a empurravam:
— Lucas… eu aceitei. Era a única forma de pagar a sua faculdade. Não jogue tudo fora agora.
O mundo de Lucas parou. A revelação foi um golpe mais forte que a ameaça de Mendes. A lealdade de Helena era a corrente que o prendia àquele pesadelo. Antes que ele pudesse responder, Mendes fez um sinal sutil. Os seguranças avançaram, agarrando Lucas pelos braços e arrastando-o para fora, enquanto a maca de Helena desaparecia através das portas duplas de vidro.
Lá fora, a chuva de São Paulo transformava o pátio em um lodo viscoso. Lucas se soltou dos seguranças e correu até a ambulância, mas o terreno alagado e a visibilidade nula tornaram a perseguição um desastre. Ele conseguiu, em um movimento desesperado, arrancar a pasta com o prontuário físico de Helena das mãos de um dos enfermeiros antes de ser empurrado contra o muro de concreto. A ambulância ligou o motor e começou a se mover, ignorando seus gritos enquanto a sirene, ainda desligada, mergulhava na escuridão da cidade.
Lucas, encolhido sob o teto de zinco de um ponto de ônibus próximo, abriu o prontuário. Entre as folhas, encontrou um anexo que selou seu destino: um contrato de sigilo e prestação de serviços assinado entre o hospital e a agência de notícias de Roberto Dantas, seu único contato. O valor era obsceno. A traição do jornalista destruiu a última rede de segurança de Lucas. O relógio em seu pulso, sincronizado com o servidor do hospital, piscava implacável. Ele estava sozinho, marcado para a purga, e a verdade era o único combustível que lhe restava.