A Fenda no Sistema
O ar no Setor de Transplantes tornou-se rarefeito, saturado com o cheiro metálico de ozônio e o antisséptico agressivo que subia pelos dutos de ventilação. Lucas Menezes estava encostado na parede fria de azulejos, observando o painel digital acima da porta de emergência. A luz, antes verde, pulsava agora em um vermelho estroboscópico. O sistema de IA do hospital não estava apenas trancando as saídas; estava drenando o oxigênio da ala para um protocolo de esterilização. Ele tinha menos de dez minutos antes que o nível de dióxido de carbono tornasse qualquer esforço físico impossível. Elias fora levado. A prova viva do óbito forjado do paciente 402 agora era apenas um prontuário fragmentado em servidores que ele não conseguia alcançar. Lucas sentiu o peso do dispositivo de extração no bolso da jaqueta — a única peça de evidência que ainda não fora purgada. Se ele morresse ali, a verdade morreria com ele.
Lucas conectou o cartão de acesso de Helena ao terminal de manutenção manual, ignorando o aviso de 'Acesso Não Autorizado'. Seus dedos tremiam, não de medo, mas pela exaustão. Ele não estava ali para hackear o sistema de segurança; estava ali para sabotá-lo. Com um comando rápido, ele forçou uma sobrecarga no sistema de ventilação. As luzes oscilaram, o zumbido dos ventiladores engasgou e, por um segundo, a trava magnética da porta de emergência soltou um estalo metálico. Lucas não esperou. Ele se lançou contra a porta, forçando-a até que um vão de poucos centímetros permitisse sua passagem. Ao sair, o alarme sonoro disparou em todo o hospital, um som agudo e errático que marcou sua localização exata para a equipe de segurança.
Ele emergiu no corredor de serviço, o cheiro de chuva vindo das janelas mal vedadas misturando-se à náusea do hospital. À frente, viu Helena. Ela não caminhava com a postura altiva de costume; seus ombros estavam curvados, ladeada por dois seguranças da equipe de Arantes. O uniforme branco dela parecia uma mortalha. Lucas sentiu o peso do dispositivo de extração. Arantes não estava apenas monitorando; ele estava expurgando. A prova da colaboração de Helena havia vazado, e o sistema de predição comportamental agora a apontava como o próximo erro a ser corrigido. Ele viu o momento em que um dos seguranças forçou Helena em direção ao elevador de acesso restrito. Ao passar por Lucas, escondido atrás de um carrinho de expurgo, o olhar de Helena encontrou o dele. Com um movimento sutil, quase imperceptível, ela deixou cair um cartão magnético cinza. Ela se sacrificou para lhe dar a chave do servidor central.
Lucas recolheu o cartão, o plástico ainda quente, e correu para a sala de servidores. A umidade das paredes do subsolo parecia destilar o próprio medo. Ele forçou a entrada, o zumbido elétrico dos racks de dados soando como uma sentença. Conectou o terminal portátil. A tela oscilou entre o azul clínico e o vermelho. Ao acessar o diretório raiz, seus olhos varreram as pastas codificadas até encontrar o 'Protocolo de Otimização de Fluxo'. Não era uma lista de pacientes; era uma planilha de logística de órgãos, cruzando compatibilidade sanguínea com prazos de validade biológica. Nomes de pessoas comuns, pacientes vulneráveis, estavam marcados com datas de 'ajuste'. O horror veio em um nome específico: o dele próprio. Lucas Menezes estava marcado como 'anomalia a ser purgada' em menos de doze horas.
Antes que pudesse baixar a lista completa, o hardware de Lucas travou. O sistema de IA identificara a intrusão. O cronômetro de limpeza total, antes fixado em 47 horas, começou a girar velozmente, caindo de forma implacável. Doze horas. O sistema de gestão central estava drenando a energia das alas não críticas para alimentar a criptografia da purga. O alarme de segurança se intensificou, ecoando pelo subsolo. Lucas percebeu, com um aperto no peito, que Helena não estava sendo levada para um interrogatório comum, mas para a ala de acesso restrito, o único lugar onde a verdade seria enterrada para sempre. Ele estava encurralado, o tempo correndo contra sua sobrevivência, e a caçada apenas começara.