Aliança sob Tensão
O relógio digital na parede do refeitório marcava 03:15. Para qualquer outro funcionário, era apenas o fim do turno da madrugada. Para Lucas Mendes, era o início de uma contagem regressiva de 48 horas para a aniquilação de qualquer prova sobre o prontuário 402. O ar ali tinha gosto de café requentado e desinfetante hospitalar, uma mistura que, para Lucas, já significava o cheiro de uma sentença de morte.
Ele escolheu uma mesa no canto cego das câmeras de segurança. Quando a Dra. Beatriz Rocha se aproximou, ela não caminhava como uma médica; arrastava os pés com a hesitação de quem carrega um cadáver invisível. Ao se sentar, suas mãos tremiam sobre a bandeja plástica.
— Você é um suicida, Lucas — ela sibilou, a voz mal superando o zumbido das lâmpadas fluorescentes. — Viana sabe que você esteve no arquivo. Ele deu ordens para que qualquer movimento seu seja reportado. Você não deveria ter me procurado.
Lucas não perdeu tempo com defesas. Deslizou a cópia do prontuário 402 por baixo da mesa. O papel, ainda quente pelo calor do seu corpo, continha a prescrição ilegal de cloreto de potássio. Beatriz baixou os olhos, e a cor drenou de seu rosto. O segredo, antes apenas um fardo, agora era uma sentença compartilhada.
— Foi uma ordem, não um erro — confessou ela, a voz embargada. — O paciente era influente. Viana precisava do leito para um VIP. Ele me forçou a assinar o óbito natural. Se eu me recusasse, minha licença, a pensão da minha mãe, tudo seria destruído. Ele é dono deste lugar, Lucas. Ele é dono de nós.
Lucas sentiu o peso da prova física sob o paletó. Ele tinha o "como", mas a confissão de Beatriz trouxe um custo mais alto: a diretoria havia antecipado a purga. O sistema, antes programado para apagar os logs em 72 horas, agora estava configurado para formatar o servidor de backup em apenas 48 horas. Viana estava fechando o cerco.
— Ele sabe que você tem a prova física — Beatriz continuou, os olhos injetados de exaustão. — O prazo caiu. Se você não expuser isso agora, você será o próximo a ser limpo do sistema.
Antes que ele pudesse responder, o som de solas de borracha contra o piso de granito interrompeu a conversa. Dois homens em uniformes de limpeza entraram no refeitório, movendo carrinhos de polimento com uma precisão militar. À frente deles, o segurança que tentara barrar Lucas no arquivo central gesticulava, apontando para as câmeras. Eles não estavam limpando; estavam varrendo a ala.
— Saia daqui — ordenou Beatriz, empurrando-o em direção à escadaria de serviço. — Eles não vão apenas te demitir. Eles vão apagar você.
Lucas disparou para o corredor de serviço, o coração martelando a nova realidade: 47 horas e 59 minutos. Enquanto descia os degraus, ele percebeu algo que Beatriz deixara escapar em seu pânico. O acesso de Viana não era absoluto; o diretor dependia de um servidor paralelo para manter suas chantagens. Se aquele servidor existia, ele estaria no subsolo, enterrado sob toneladas de concreto e registros mortos. A prova física no seu bolso era apenas o gatilho. O verdadeiro alvo estava no escuro, esperando para ser revelado.