O Preço da Curiosidade
O ar no subsolo do Hospital das Clínicas era denso, impregnado com o cheiro de mofo e o zumbido metálico das luzes fluorescentes que piscavam em um ritmo agoniante. Lucas Mendes sentiu o peso da pasta de papelão escondida sob o paletó — um volume que parecia vibrar contra suas costelas. Ele deu um passo em direção à saída, mas Valdir, o segurança, bloqueou o corredor com uma impassibilidade que denunciava ordens superiores. A mão do homem repousava sobre o rádio preso ao cinto, os dedos tamborilando um aviso silencioso.
— O senhor sabe que não pode retirar documentos do arquivo, Mendes — disse Valdir. A voz era desprovida de qualquer hesitação. — Deixe a pasta no balcão. Agora.
Lucas sentiu o suor frio escorrer pela espinha. O prontuário 402, com a omissão criminosa da dose de cloreto de potássio, era a única prova que ele possuía contra o sistema. Se a entregasse, a verdade sobre o óbito seria incinerada antes do amanhecer. O relógio interno do hospital, aquele sistema invisível que ele acabara de despertar, contava as horas para a purga definitiva: restavam 71 horas e 42 minutos.
— É uma inspeção de conformidade de emergência, Valdir — Lucas forçou a voz a soar autoritária, usando o tom que aprendera a reservar para quando a burocracia se tornava uma arma. — O Diretor Viana autorizou. Se você me impedir, o relatório de obstrução de auditoria sairá com o seu nome em destaque. Quer mesmo explicar para o RH por que tentou impedir um auditor sênior em pleno exercício?
Valdir hesitou, o olhar vacilando entre o crachá de Lucas e a porta do arquivo. Foi o suficiente. Lucas passou por ele com passos firmes, embora sentisse o peso do olhar do segurança em suas costas. O rádio de Valdir chiou imediatamente. O alerta fora dado.
De volta à sua sala, o ambiente parecia ter encolhido. O monitor projetava sombras profundas sob seus olhos. Lucas colocou o prontuário físico sobre a mesa, uma folha amarelada que gritava a verdade que o sistema digital tentava silenciar. Ele moveu o mouse, o clique soando como um disparo no silêncio da sala. Precisava identificar quem entrara no log de edição. Digitou sua credencial, mas a tela respondeu com uma lentidão calculada. A barra de carregamento estagnou em noventa por cento.
De repente, o cursor travou. A tela piscou em um tom carmesim, agressivo. Uma janela de diálogo surgiu: ACESSO REVOGADO. CONTATAR ADMINISTRAÇÃO. O coração de Lucas deu um salto. Ele não estava apenas sendo bloqueado; estava sendo caçado. Antes que pudesse processar a falha, o telefone da mesa tocou. Era a secretária do Diretor Viana.
A porta de mogno da sala de Otávio Viana fechou-se com um baque surdo. O diretor observava Lucas com uma calma predatória, as mãos entrelaçadas sobre uma mesa de vidro impecável. Atrás dele, a vista de São Paulo brilhava, indiferente ao que acontecia dentro daquelas paredes.
— Lucas, você é um homem de números — começou Viana, a voz aveludada. — Números não deveriam se perder em histórias de fantasmas. Por que você insiste em desenterrá-las?
Lucas manteve a postura, ignorando o tremor em suas mãos. — Auditoria de rotina, Diretor. O sistema acusou uma divergência no 402.
Viana abriu uma pasta sobre a mesa, revelando o relatório de um erro passado de Lucas, o incidente que quase custara sua licença anos atrás. — Eu sei exatamente o que você busca, e sei o que você esconde sob esse paletó. Se você for inteligente, vai entender que o seu futuro aqui depende da sua capacidade de esquecer. Se não for... bem, o hospital tem formas de descartar o que não serve mais.
Lucas saiu da sala com a sensação de estar sendo vigiado por cada câmera no corredor. Ele encontrou a Dra. Beatriz Rocha em um corredor de serviço. Beatriz estava pálida, os olhos fixos no relógio da parede que marcava 48 horas para a purga, um tempo drasticamente reduzido pela diretoria após a intromissão de Lucas.
— Eles sabem, Lucas — ela sussurrou, a voz trêmula. — Eles encurtaram o prazo. Não é apenas o 402. O sistema inteiro vai ser limpo em dois dias. Você não está apenas investigando um erro; você está tentando impedir uma limpeza institucional que vai apagar todo mundo que ousar olhar para trás.
Lucas olhou para o prontuário em suas mãos. O tempo não era apenas um inimigo; era um veredito.