Chapter 12
22h42. O ar no almoxarifado tinha gosto de ozônio e poeira. Helena observou o cursor piscando no terminal de acesso: um metrônomo cruel. O servidor de logs seria limpo às 23h00. Dezessete minutos para transformar o silêncio institucional em prova de acusação.
Ela inseriu o cartão cinza de Caio. O sistema hesitou, a tela oscilando entre o azul clínico e o cinza de erro. Acesso negado. Credencial sob auditoria de segurança.
O alerta não veio por som, mas por uma notificação silenciosa no canto da tela: um ícone de cadeado que se fechava. Lígia não estava apenas protegendo o hospital; ela estava caçando Helena dentro da rede. A diretora, acreditando ter o pendrive falso em mãos, agora movia as peças para isolar a intrusa antes da purga final.
Helena arrancou o cartão e correu. O corredor de serviço era um túnel de luzes fluorescentes que zumbiam em uma frequência de pânico. Ela encontrou Bia perto da área de expurgo, as mãos da irmã tremendo enquanto ela escondia um frasco lacrado sob o avental.
— Eles trancaram a saída da emergência, Helena — Bia sussurrou, a voz contida pela pressão do turno. — A segurança recebeu ordens para revistar qualquer pessoa que saia do setor administrativo. Se você for pega com isso, não é só o seu CRM. É a minha vida aqui dentro.
Helena segurou os braços da irmã, sentindo a rigidez sob o tecido. — Bia, o prontuário oficial é uma fraude. Se essa amostra biológica não chegar ao IML, o horário do óbito será enterrado com o corpo. Eu preciso que você a entregue ao Renato. Agora.
Bia olhou para o final do corredor, onde dois seguranças de crachá virado patrulhavam a ala. Ela entregou o frasco e um tablet de acesso, o rosto endurecido pela escolha. — Vá. Se eles rastrearem meu login, eu perco tudo. Mas se você sair, a verdade sobre o que fizeram aqui não morre com o plantão.
Helena não respondeu. Ela correu para a escadaria de serviço, mas Lígia Marconi a esperava no patamar, impecável, com a postura de quem nunca havia cometido um erro na vida.
— O jogo acabou, Helena — disse Lígia, a voz fria como o ar condicionado do hospital. — O pendrive que você me entregou é uma peça de teatro. Onde está o real?
Helena sentiu o peso do metal contra o tórax, escondido sob o forro do jaleco. — Você acha que eu sou a única cópia, Lígia? A assinatura DIR-CLIN-01 já disparou o trâmite automático para a fila policial paralela. Se você me prender, o sistema abre a auditoria completa. Você não está protegendo o hospital. Está segurando uma granada sem pino.
Lígia vacilou, o olhar buscando uma falha na convicção de Helena. Foi a fração de segundo necessária. Helena contornou a diretora e disparou para o estacionamento. 22h58. O relógio no painel do saguão parecia correr mais rápido.
Renato Valente estava parado junto à cancela, o olhar fixo na movimentação da segurança. — Helena, pare! Eles vão alegar roubo de propriedade privada!
— Não é roubo se é a prova de um crime — ela gritou, conectando o pendrive ao celular enquanto corria.
22h59. O sistema de logs iniciou a purga. Helena pressionou 'Enviar' no momento em que a rede interna do hospital colapsou. O sinal de Wi-Fi foi derrubado, mas o upload já estava em 98%.
Envio concluído.
Helena parou, ofegante, enquanto os seguranças a cercavam. Ela olhou para a tela do celular: os logs, a assinatura de Lígia e o horário real do óbito estavam agora em servidores públicos. O hospital era uma armadilha, mas a verdade estava fora dos muros. O encobrimento havia acabado, e o preço, para todos, estava apenas começando a ser cobrado.