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Chapter 11: Chapter 11

Helena tenta extrair os logs de acesso antes da purga das 23h, mas é bloqueada pelo sistema. Ela confronta Lígia, entregando um pendrive falso para proteger a prova real, e descobre que Renato não pode intervir devido à burocracia da fila policial paralela. O capítulo termina com Helena forçando Bia a arriscar a carreira para recuperar a última prova física: uma amostra biológica com o horário real do óbito.

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Chapter 11

O cronômetro no canto da tela do terminal de rede marcava 22h42. Helena trancou a porta do arquivo morto, o ar viciado carregando o cheiro de papel úmido e o suor frio de seu próprio desespero. Suas mãos, antes firmes, tremiam ao inserir o cartão cinza — a chave temporária de Caio — na fenda do terminal. A tela piscou, revelando uma sucessão de logs de acesso. Ela buscou a sala de prontuários. Seus olhos varreram as colunas, ignorando a dor aguda na têmpora. O registro estava lá: 18h45. Usuário: DIR-CLIN-01. A assinatura digital de Lígia Marconi, gravada no sistema como o selo de uma execução planejada.

— Vamos, me dê o que preciso — murmurou Helena. Ela tentou copiar o arquivo bruto, mas o cursor travou. Uma mensagem em vermelho preencheu a tela: ACESSO NEGADO. AGUARDANDO REINICIALIZAÇÃO DO SERVIDOR. O pânico subiu como uma maré. O hospital não estava apenas deletando os logs; estava substituindo-os por uma versão limpa. Ela observou, impotente, enquanto os dados reais eram sobrescritos. Quando a tela finalmente escureceu, um alarme silencioso disparou no painel da diretoria. O tempo de Helena havia acabado.

Ao sair da sala, o corredor administrativo parecia um túnel sem fim. Dois seguranças particulares, ombros largos e expressões treinadas para o anonimato, bloquearam o caminho. Atrás deles, Lígia Marconi surgiu, a postura impecável, o olhar carregado de um desprezo gélido.

— Dra. Nóbrega. A curiosidade é um traço perigoso, especialmente quando não se tem mais o crachá para justificá-la — a voz de Lígia era um corte fino.

Helena sentiu o peso do pendrive no bolso interno do jaleco. Ela manteve o olhar fixo em Lígia, ignorando a pressão dos seguranças.

— A curiosidade é o que separa a medicina da negligência, Lígia. Ou do encobrimento — respondeu Helena.

Lígia deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal. O perfume floral, caro e sufocante, preencheu o ar.

— Você tem uma irmã, não é? A Bia. Seria uma pena se o histórico dela fosse... reavaliado. Entregue o que você tirou da sala. Agora.

Helena sentiu o sangue gelar, mas sua mão não hesitou. Ela retirou um pendrive de seu bolso e o estendeu. Lígia o pegou, um sorriso triunfante surgindo em seus lábios. Helena virou-se e caminhou para longe, o verdadeiro pendrive ainda escondido sob o forro do jaleco, o coração martelando contra as costelas.

O vento gelado do estacionamento cortava a jaqueta de Helena. Ela viu o farol do carro de Renato iluminar a neblina. Ele não desligou o motor.

— O hospital está movendo o corpo, Renato. Estão usando uma funerária conveniada, uma extensão da estrutura deles — Helena disparou, sem cumprimentos.

Renato tamborilou os dedos no volante, um gesto de derrota.

— Helena, eu tenho a confissão do Caio, mas a direção formalizou o trâmite na fila policial paralela. Se eu intervir sem uma ordem judicial que não chegará antes das seis da manhã, eu coloco meu distintivo na mesa. Eles cobriram as pontas com carimbos que você não pode contestar.

Helena sentiu o peso da realidade. O hospital não estava apenas escondendo um crime; estava usando o tempo para legalizá-lo. Ao amanhecer, a cadeia de custódia seria selada, e qualquer prova posterior seria tecnicamente inadmissível.

— Bia — Helena murmurou, sacando o celular. A última chance era uma amostra biológica esquecida no setor de descarte, marcada com o horário real de 18h42.

— Bia, você precisa retirar a amostra agora. Se o servidor for purgado às 23h e o corpo sumir, essa é a única prova que resta.

Do outro lado da linha, o silêncio de Bia foi o prelúdio de uma ruína.

— Se eu fizer isso, não tem volta, Helena. Eles vão saber.

Helena olhou para a fachada imponente do hospital, sabendo que, ao forçar a irmã a esse ato, ambas se tornariam alvos de um sistema que não perdoa a verdade. A única forma de vencer agora era levar a prova a público, antes que o amanhecer transformasse o crime em um documento oficial, e a verdade desaparecesse junto com a dignidade de sua família.

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