O Relógio de Areia
O zumbido dos servidores era uma frequência agressiva, uma vibração metálica que Elias sentia latejar nos dentes. Ele estava caído no piso de epóxi, o ar estagnado cheirando a ozônio e plástico superaquecido. O visor digital na parede, posicionado acima do painel de controle, brilhava com uma contagem regressiva impiedosa: 04:12:09. O protocolo de expurgo de Mendes não era apenas uma limpeza de dados; era uma execução cirúrgica da verdade.
Elias tentou se levantar, mas a dor na costela, fruto do empurrão que o Diretor Mendes lhe dera minutos antes, o fez arfar. A porta de segurança, reforçada por travas eletromagnéticas, ignorava o cartão de Beatriz que ele ainda segurava com os dedos trêmulos. Do outro lado do vidro reforçado, a sala de servidores central parecia um aquário estéril, mas o calor já começava a subir. Mendes desligara o sistema de refrigeração manualmente para forçar uma pane térmica, um método brutal de destruir o hardware e os registros de auditoria que Elias precisava extrair.
Ele arrastou-se até o console principal. Se a temperatura ultrapassasse os limites críticos, os discos rígidos seriam purgados e o acesso negado permanentemente. Elias conectou seu pen drive pessoal ao terminal de emergência. A tela piscou, exibindo uma interface de linha de comando que ele conhecia bem demais. Ele não tinha tempo para contornar o firewall; precisava de uma entrada bruta.
— Vamos — sussurrou, os dedos voando sobre o teclado mecânico.
Ele sacrificou a integridade dos arquivos temporários do prontuário 402 para criar um atalho no sistema de segurança. A porta destravou com um estalo metálico seco, revelando um corredor inundado pela chuva que vazava pelo teto, transformando o subsolo em um labirinto de reflexos negros e fios expostos.
Ao cruzar o corredor, encontrou Beatriz. Ela estava encharcada, a pele pálida sob a luz de emergência.
— Mendes sabe — ela disse, a voz trêmula mas firme, entregando-lhe um cartão de acesso de alto nível. — Ele sabe da nossa conexão. Os seguranças estão bloqueando os elevadores de serviço. Eles não estão evacuando pacientes, Elias. Estão evacuando o que resta das provas biológicas do necrotério antes que a polícia consiga chegar através da tempestade.
Elias sentiu o peso do cartão. Era uma sentença de morte para ela.
— Saia daqui, Beatriz. Vá para o estacionamento. Se eu não sair em dez minutos, leve o que tiver para a imprensa.
Ele avançou em direção à Central de Dados, subindo as escadas de serviço enquanto o hospital tremia com o impacto da tormenta. Ao chegar à divisória de vidro do nível 2, o cenário paralisou seu coração. Mendes estava sentado, equilibrado, com uma xícara de café fumegante ao lado do teclado. Seus dedos moviam-se com a cadência de um pianista, deletando blocos inteiros de registros enquanto a contagem regressiva no monitor principal piscava em um vermelho clínico: 04:12:09.
Elias golpeou o vidro, mas o som foi abafado. Mendes nem sequer levantou os olhos. Com um clique final, o Diretor minimizou a janela de auditoria e abriu um arquivo de log de funcionários. Elias sentiu o sangue drenar de seu rosto quando, na tela espelhada, seu próprio nome surgiu em letras garrafais: ROCHA, ELIAS - SUSPEITO DE NEGLIGÊNCIA FATAL - PROCESSO ADMINISTRATIVO IMEDIATO.
— Você chegou tarde, Elias — a voz de Mendes ecoou pelos alto-falantes da sala, fria e desprovida de qualquer emoção humana. — O sistema não aceita intrusos. Ele aceita apenas culpados.
Elias forçou o teclado, mas o sistema de segurança reagiu. As luzes da central oscilaram e se apagaram, deixando-o na penumbra azulada dos servidores. O bloqueio físico foi ativado. As portas metálicas travaram com um clique seco e final. Preso na central, enquanto Mendes continuava a apagar os registros, Elias percebeu que não havia saída digital. Ele correu para o duto de ventilação, a única via restante. Ao emergir no estacionamento, sob a cortina de chuva torrencial, as luzes do pátio se apagaram uma a uma. O sistema de segurança estava selando todas as saídas, transformando o hospital em uma tumba de concreto e silêncio.