O Preço da Acesso
O som metálico dos passos de Mendes no corredor de mármore do Santa Cecília não era apenas um ruído; era um metrônomo. Cada eco contra as paredes estéreis reduzia o espaço de manobra de Elias Rocha. Ele se prensou contra a sombra de um carrinho de suprimentos, o peito subindo e descendo em um ritmo forçado para não emitir som. No bolso, o pen drive com o fragmento do prontuário 402 parecia queimar contra sua coxa — um pedaço de prova que, se descoberto, não apenas encerraria sua carreira, mas sua vida social dentro daquela instituição.
— O sistema de expurgo está rodando, Diretor. Onze horas e cinquenta minutos para a limpeza total dos logs — a voz do segurança, abafada pela porta da sala de arquivos, soou como uma sentença.
— Ótimo — a voz de Mendes, inconfundivelmente fria, cortou o ar. — O intruso não sairá deste prédio antes que a auditoria interna seja concluída. Bloqueiem a ala leste. A chuva lá fora está isolando o hospital; ninguém entra ou sai sem minha autorização expressa.
Elias sentiu o estômago revirar. O 'Relógio do Hospital' não era uma metáfora; era um protocolo de 12 horas desenhado para apagar qualquer rastro de negligência antes da inspeção estadual. O lockdown, justificado pela tempestade que fustigava as vidraças reforçadas, transformara o Santa Cecília em uma armadilha de vidro e aço.
Ele recuou até a sala de descanso, onde Beatriz Viana o aguardava. O zumbido da máquina de café parecia uma contagem regressiva em si mesmo. O cronômetro no tablet de Elias marcava 11:42:15.
— Você não entende, Elias — sussurrou ela, os olhos fixos na porta. — Eles não apenas apagam os dados. Eles reconstroem a história. Se eu não tivesse alterado aquele registro sob as ordens do Mendes, minha licença teria sido revogada antes do amanhecer. Eles usam nossos erros como coleiras.
— Eu preciso da chave, Beatriz — Elias insistiu, a voz firme apesar do pânico. — O paciente do 402 não morreu de causas naturais. Eu vi a alteração na dosagem.
Beatriz hesitou, a mão tremendo sobre a bancada. — Eu te dou o acesso. Mas há um preço. O Mendes precisa de um bode expiatório para justificar o erro no 402. Se você incriminar o enfermeiro Santos, eles vão parar de procurar pelo 'intruso'. Você salva sua pele e a minha, mas o Santos... ele não tem como se defender.
Elias sentiu o peso da moralidade escorregando. O cartão de acesso que ela estendeu, ainda morno pelo calor da mão dela, vibrava contra a sua palma.
— Se você usar isso, eles saberão que fui eu — ela avisou, o terror estampado em seu rosto. O som de passos pesados ecoou no corredor, aproximando-se da sala de descanso.
Elias não hesitou. Ele correu para a sala de servidores, inserindo o cartão de Beatriz na fenda. O bipe baixo soou como um tiro. O ambiente era um santuário de ar gelado e luzes azuis piscantes. Seus dedos voaram pelo teclado, acessando o módulo de áudio ambiente. O choque foi imediato: o hospital não monitorava apenas os corredores; microfones ocultos captavam cada sussurro dentro das salas de exames.
Enquanto a barra de progresso no monitor atingia 95%, o estrondo seco da porta de metal cedendo ecoou pelo recinto. Mendes entrou, a silhueta imponente cortando a luz azul dos servidores, com um sorriso gélido que não chegava aos olhos.
— Você acabou de perder o seu crachá, Elias — disse Mendes, enquanto a segurança fechava o cerco. — E talvez a sua liberdade.