Doze Horas para o Silêncio
O cursor piscava sobre o campo "Causa do Óbito" com a cadência de um metrônomo cardíaco. Elias Rocha sentiu o ar condicionado do setor de registros médicos, antes um alívio, tornar-se uma lâmina gelada contra sua nuca. Lá fora, a chuva de São Paulo fustigava o vidro reforçado, um ruído branco que isolava o hospital do resto do mundo, transformando o prédio em uma ilha de segredos.
No prontuário digital do leito 402, a palavra "Infarto" foi substituída por "Insuficiência Respiratória Aguda". A edição era limpa, cirúrgica. Elias, o homem pago para garantir que a hierarquia do hospital nunca fosse manchada por processos ou escândalos, sabia que aquilo não era um erro de digitação. Era uma mentira institucional.
Um alerta âmbar surgiu no canto da tela, expandindo-se para um vermelho pulsante: PROTOCOLO DE EXPURGO AUTOMÁTICO: 11:59:58.
— Você não deveria estar olhando isso, Elias. — A voz de Beatriz Viana cortou o silêncio. A residente estava pálida, os dedos apertando o estetoscópio como se fosse um rosário. — O Diretor Mendes autorizou a limpeza do servidor há dez minutos. Se você continuar aqui, será parte do expurgo.
Elias não se virou. Seus olhos estavam fixos no contador. O hospital, aquela fera de concreto e aço, estava engolindo a verdade para proteger a reputação de seus cirurgiões.
— O 402, Beatriz — Elias sussurrou, a voz rouca. — Eles forjaram o óbito antes do relatório do IML. Quem estava na administração quando isso foi editado?
— Cale a boca. — Ela se aproximou, os olhos varrendo o corredor vazio. — Você não sabe com quem está mexendo. O Diretor Mendes sabe que o acesso root foi solicitado. Se você salvar esse arquivo, não haverá retorno.
Elias sentiu o peso do pen drive no bolso. Ao inseri-lo na porta USB, o calor do dispositivo metálico contra a ponta dos dedos parecia uma queimadura. O hospital rastreava cada conexão. Ao copiar aquele fragmento de dados, ele assinava sua própria sentença. O relógio marcava 11:45:12.
Beatriz hesitou, a pele translúcida sob a luz fria dos LEDs. Ela estendeu a mão, revelando um cartão de acesso de alta segurança, usado apenas por chefes de departamento.
— Se você usar isso, eles saberão que fui eu quem entregou — ela murmurou, trêmula. — Mas, se você não sair daqui agora, o próximo a ser apagado será você.
O som de passos ritmados ecoou no corredor. O Diretor Mendes caminhava em direção à sala de registros, sua presença imponente interrompendo o silêncio da ala. Elias viu o cursor do sistema apagar a última linha da causa da morte original. O relógio de 12 horas começou a piscar em vermelho vivo no canto da tela. O jogo de gato e rato havia começado, e o hospital estava fechando o cerco.