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Chapter 10: Confronto no Escuro

Bia confronta Viana na sala de servidores. Usando o crachá de Lucas, ela consegue reiniciar o sistema e forçar a conclusão do upload das provas do paciente 402, mesmo sob ameaça física do executor de Viana.

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Confronto no Escuro

O silêncio na sala de servidores não era paz; era a ausência de vida. A energia fora cortada, e o zumbido constante dos racks — a batida do coração do hospital — cessara. Bia Rocha estava agachada no breu, o suor escorrendo pelas têmporas, seus dedos trêmulos tateando o metal frio do terminal. A tela, alimentada por uma bateria de emergência que agonizava, exibia o progresso: 82%. O upload das provas contra Viana estava congelado, um monumento à sua própria impotência.

No corredor, o som de botas pesadas no linóleo ecoou com a cadência metódica de uma sentença. O executor não tinha pressa. Ele testava as trancas com a calma de quem sabe que o hospital é uma jaula hermética. Bia sentiu o peso do pendrive no bolso. Cada segundo era um grão de areia escorrendo em direção às 06:00, o horário da purga total que apagaria não apenas os logs, mas qualquer rastro de sua existência profissional.

— Eu sei que você está aí, Bia — a voz de Viana perfurou o isolamento acústico da porta. Não havia o tom filantrópico de costume; era um rosnado de desespero. — O sistema será reiniciado para a purga em dez minutos. Você tem duas opções: sair agora e entregar o hardware, ou ser encontrada quando o sistema apagar tudo o que resta da sua carreira e da vida do Lucas.

Bia sentiu o estômago revirar. A dívida de Lucas — o tratamento oncológico da mãe dele — era o elo que mantinha o técnico submisso ao hospital. Viana não a ameaçava apenas com o executor; ele a ameaçava com o sangue de pessoas inocentes. Ela olhou para a tela. O sistema de segurança, em modo de falha, exigia uma chave de administrador para reiniciar o fluxo de dados. Ela tateou o bolso, sentindo o crachá de Lucas, entregue a ela como um último ato de resistência.

A porta da sala de servidores rangeu, cedendo à chave mestra. Viana entrou, a silhueta do executor armada logo atrás, uma sombra cinzenta recortada pela luz fraca do corredor. O diretor clínico caminhou até o centro da sala, a gravata frouxa e os olhos injetados, o verniz de gestor exemplar completamente estilhaçado.

— O jogo acabou, Bia — Viana gesticulou para o terminal. — Você está morrendo por um arquivo que será deletado enquanto seu corpo ainda estiver esfriando neste chão imundo. Entregue o HD e o tratamento da mãe dele continua. É uma transação simples. A vida dela pela sua liberdade.

Bia levantou-se, as pernas trêmulas, mas a postura firme. O medo era um nó, mas a memória da execução do paciente 402 era um combustível mais forte. Ela deu um passo à frente, fingindo derrota, estendendo a mão vazia como se fosse entregar o dispositivo.

— Você acha que o dinheiro apaga o que aconteceu no quarto 402? — ela perguntou, a voz cortando o silêncio.

Enquanto o executor avançava, Bia usou o crachá de Lucas para forçar um comando de reinicialização no painel lateral. O servidor soltou um estalo elétrico e os ventiladores voltaram a girar, um rugido metálico que preencheu a sala. O upload saltou de 82% para 90% instantaneamente. Viana avançou, mas Bia jogou-se contra ele, usando o corpo como um escudo entre o diretor e o cabo de força. Eles colidiram contra o rack, o metal cortando a pele de Bia, mas ela não soltou o terminal. O executor hesitou por um segundo, incapaz de atirar sem atingir Viana.

95%. O sistema começou a disparar pacotes de dados para a nuvem externa.

— Você não entende, Viana! — Bia gritou, enquanto o executor a agarrava pelo braço. — Não é sobre o hospital. É sobre o que vocês fizeram com a gente!

99%. O cursor brilhou em verde intenso. O sistema disparou o envio final para a imprensa e os órgãos de controle. Bia sentiu o aperto do executor em seu pescoço, o ar fugindo de seus pulmões, mas um sorriso amargo surgiu em seus lábios. O som de dezenas de notificações de celulares começou a ecoar pelo hospital, um coro crescente de avisos que anunciava que o segredo estava, finalmente, nas mãos de quem poderia destruí-los.

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