Hora da Auditoria
O baque metálico contra a porta da sala de servidores ecoou pelo subsolo, um som seco de aço contra aço que fez a bancada de trabalho vibrar. Bia Rocha não se virou. Seus olhos estavam fixos na barra de progresso azul que avançava com uma lentidão agoniante: 22%.
— Beatriz, abra. Você sabe que não há saída — a voz de Viana era um sussurro abafado através da vedação acústica, mas carregava a autoridade fria de quem já havia vencido a partida antes mesmo de ela começar. — O auditor está esperando no andar de cima. Ele não quer um relatório, ele quer o fechamento do caso. E o caso termina com você.
Bia sentiu o estômago revirar. O 'auditor' não era um burocrata de Brasília; era um executor. A percepção atingiu-a com a força de um choque térmico: a instituição não estava sendo investigada, estava sendo limpa. Um novo golpe, mais pesado, fez a dobradiça superior da porta ceder um milímetro. A luz de alerta de intrusão do sistema começou a piscar em um vermelho intermitente, exigindo reautenticação biométrica a cada trinta segundos. O sistema não estava apenas protegendo os dados; ele estava rastreando-a. O chip do seu celular, guardado no bolso do jaleco, funcionava como um farol para a segurança privada de Viana. Sem hesitar, ela sacou o aparelho e o arremessou com força dentro do duto de ventilação. O silêncio que se seguiu foi o preço de sua invisibilidade.
No monitor de 24 polegadas, o progresso saltou para 42%. Bia alternou a visão para as câmeras de segurança do saguão. Dr. Arnaldo Viana caminhava com uma postura de predador satisfeito, ladeado por um homem de ombros largos, terno cinza sem insígnias e um olhar que não buscava prontuários, mas alvos. O suposto 'auditor' não carregava pastas ou maletas. Sob o paletó, o volume metálico no coldre axilar era inconfundível. Lucas, encolhido no canto da sala, observava a própria ruína na tela de seu tablet: a dívida do tratamento médico da mãe, exibida como uma coleira digital. Ele não precisava falar; o silêncio dele era a confissão de que o hospital não estava apenas protegendo um erro médico, estava eliminando testemunhas. O paciente 402, cuja morte por bloqueador neuromuscular fora assinada por Viana, era apenas o começo.
Com o upload em 60%, a porta de segurança começou a ceder de vez. Bia arrancou o painel de controle de incêndio com uma chave de fenda. Faíscas lamberam seus dedos quando ela uniu os fios, forçando um curto-circuito. O alarme estourou em um uivo ensurdecedor, as luzes de emergência banhando o corredor em um vermelho sanguíneo. O protocolo de bloqueio foi ativado instantaneamente: portas automáticas deslizaram, selando os acessos.
Bia aproveitou o pânico coletivo e a fumaça saindo do painel para se misturar à massa de enfermeiros que corria em direção ao setor administrativo. Ela baixou a cabeça, o crachá furtado escondendo seu rosto. Mas, ao chegar à saída de emergência, parou bruscamente. Viana estava lá, bloqueando o caminho com uma arma em punho. O ar tornou-se denso, impregnado pelo cheiro de plástico queimado. Ela precisava ser invisível, mas o peso do pen-drive no bolso da bata parecia uma brasa viva. Viana não estava evacuando; ele estava caçando.
05:52 da manhã. A tela de um terminal remoto no corredor administrativo brilhava em um azul gélido: 80% carregado. Bia sentiu o suor frio escorrer pela nuca. Ela não estava apenas enviando arquivos; estava tentando arrancar a pele de uma instituição protegida por décadas de impunidade. O teclado sob seus dedos tremia.
— Você não entende, Bia — a voz de Arnaldo Viana ecoou pelo interfone, desprovida de humanidade. — Você acha que está expondo a verdade. Você está apenas assinando a sua sentença de invisibilidade. O auditor não veio para revisar números. Ele veio para garantir que nada, absolutamente nada, saia deste prédio.
Bia ignorou a voz, seus olhos fixos na porcentagem. 82%. De repente, o zumbido dos servidores morreu. As luzes do corredor administrativo piscaram e se apagaram. A escuridão absoluta engoliu o setor, o upload travou, e o único som que restou foi o clique metálico de uma trava de segurança sendo destravada no corredor, a poucos metros de distância.