O Relógio Zera
O ar no duto de ventilação tinha gosto de ferrugem e ozônio. Elias rastejava sobre os cotovelos, o suor frio misturando-se à fuligem das grades. Abaixo, o som metálico das botas da equipe de segurança ecoava pelo setor administrativo. Eram 04:15. O bloqueio de seu crachá não fora apenas uma trava digital; era a marca de um fantasma que o hospital decidira apagar.
Ele parou sobre a grade de exaustão do centro de processamento. Lá embaixo, Viana observava a tela principal: Transferência de Dados - Servidor Externo Almeida Equity. A barra de progresso estava estagnada em 40%. A verdade sobre o Protocolo Lázaro-Beta estava sendo drenada para um cofre corporativo, inacessível a qualquer auditoria. Elias sentiu um vazio gélido: sua contratação não fora mérito, fora um contrato de servidão disfarçado de dívida estudantil.
Ele deslizou para o subsolo técnico, um labirinto de tubulações de cobre que choravam condensação. A chuva de São Paulo castigava o telhado, e a água já subia pelos seus tornozelos, uma ameaça silenciosa aos documentos físicos que ele protegia contra o peito. Ao conectar o drive USB no terminal de manutenção, o sistema emitiu um bipe seco: Erro: Acesso Negado. Lista Negra.
As portas corta-fogo selaram o corredor com um estrondo hidráulico. Dois seguranças surgiram, as lanternas varrendo a penumbra. Elias não era mais um funcionário; era um ativo em débito que precisava ser neutralizado. Ele disparou o extintor de incêndio contra o painel elétrico. O curto-circuito explodiu em faíscas e vapor, cegando os homens. Ele correu, os pés escorregando no piso alagado, buscando a escada de serviço.
Minutos depois, ele emergiu na sala de observação da UTI. Viana o esperava, as mãos cruzadas, observando os monitores. Helena estava no leito central, sua respiração ditada por um ritmo mecânico que oscilava perigosamente. O gráfico cardíaco era uma linha de falha geológica.
— Você está atrasado, Elias — disse Viana, sem se virar. — A purga foi concluída. O que você carrega nesse envelope já não existe em nenhum servidor desta instituição.
Um filete de água fria escorreu pelas costas de Elias. O duto de ventilação acima, rompido pela pressão da tempestade, vertia um fluxo constante de água suja diretamente sobre o envelope. O plástico, já desgastado, cedeu. Viana sorriu, um gesto desprovido de calor.
— Entregue os papéis, Elias. Ou o suporte de Helena desliga agora. A escolha é sua: a verdade que ninguém verá ou a vida da sua única família.