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Chapter 12: Após o Feed

Elias e Beatriz concluem o upload da prova do Projeto de Expurgos de 1994 no momento em que os coletores invadem o telhado. O Feed colapsa, o cronômetro desaparece e a cidade é deixada em um silêncio absoluto. Elias e Beatriz se separam, cientes de que a verdade agora pertence ao povo, mas que suas vidas como indivíduos registrados terminaram.

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Após o Feed

O metal da porta blindada do Centro de Processamento gemeu, cedendo sob o impacto hidráulico dos aríetes. O som, abafado pela chuva ácida que chicoteava o telhado, era o aviso final: o tempo de Elias havia acabado. Beatriz, agachada atrás de um console de servidores, tinha os dedos sangrando sobre o teclado tátil. A barra de progresso da transmissão, o único brilho de esperança na sala, oscilava em 92%. A luz azulada do Feed refletia em seu rosto, desenhando as sombras de uma derrota iminente.

— Elias, a conexão está instável. Se eles cortarem a energia agora, a prova do expurgo morre junto com o servidor — a voz dela era um sussurro rouco, quase inaudível contra o estalar da chuva metálica.

Elias olhou para o cronômetro projetado no céu cinzento, as letras digitais tremeluzindo em 00:08:45. Cada segundo parecia uma agulha sendo retirada de sua pele. Sua identidade digital, o último vestígio do que ele fora antes daquela noite, estava sendo drenada para sustentar o túnel de upload. Ele sentia o vazio, uma ausência física onde antes residiam seus registros, sua história e o nome que carregara com o peso da linhagem de seu pai. Ele era um fantasma no sistema, e o sistema estava prestes a ser deletado.

— Não pare — ordenou Elias, posicionando-se entre a porta e o terminal. Ele empunhou um pedaço de vergalhão enferrujado, seu único recurso contra a tecnologia de supressão dos coletores.

O estrondo final veio quando a dobradiça superior cedeu. A porta foi arremessada para dentro, revelando as silhuetas negras dos coletores. Sem hesitar, Elias se lançou contra o primeiro, usando o peso do desespero contra a frieza mecânica dos invasores. O confronto foi brutal, um choque de carne contra a autoridade do sistema. Beatriz, ignorando o sangue que escorria de um corte na têmpora, cravou a última sequência de comandos.

— 98%... 99%... — ela gritou, a voz subindo uma oitava.

No instante em que o contador atingiu 100%, o mundo pareceu prender a respiração. O cronômetro no céu de neon oscilou, um espasmo de luz azul, antes de apagar de vez. O silêncio que se seguiu não foi uma ausência de som, mas a súbita dissipação de uma pressão que Elias nem sabia que carregava. O Feed estava morto. Os coletores pararam no meio do movimento, suas lanternas piscando em um padrão errático antes de se apagarem, desorientados pela perda de comando central.

Elias e Beatriz desceram as escadas de serviço, agora desativadas, em um silêncio quase sagrado. Ao atingirem o nível da rua, a cena era de uma desorientação visceral. A chuva ácida ainda caía, mas a população, acostumada à ditadura do Feed, permanecia estática. Pessoas saíam de suas casas com telas de pulso pretas, os rostos iluminados pela confusão. Não havia mais o script para ditar o que sentir ou quem culpar. O brilho onipresente que moldava a realidade brasileira desaparecera, deixando a metrópole mergulhada em uma escuridão sem precedentes.

Ao amanhecer, observando a cidade do alto de uma estrutura industrial, Elias olhou para o pedaço de metal corroído em sua mão — a relíquia, agora apenas um artefato sem valor. Beatriz, pálida e trêmula, desligou seu tablet com um gesto seco e definitivo.

— Eles não podem mais editar o que já foi transmitido — disse ela, a voz quase irreconhecível.

Elias olhou para o horizonte. A verdade sobre o Projeto de Expurgos de 1994, sobre o papel de seu pai na purga de linhagens, agora pertencia a cada pessoa que tivesse olhado para uma tela antes do colapso. Eles se separaram ali, sem promessas, sabendo que qualquer contato futuro os colocaria em risco. Elias ficou sozinho, observando a cidade que começava a reconstruir sua própria história, fora do script. A verdade era um fardo que a metrópole ainda não sabia carregar, mas, pela primeira vez, o peso era real.

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