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Chapter 11: O Escândalo da Verdade

Elias e Beatriz estão cercados no telhado do Centro de Processamento enquanto a transmissão da prova do Projeto de Expurgos de 1994 atinge 82%. O cronômetro do Feed marca 59 minutos e a facção dos coletores rompe a última barreira. Elias enfrenta a escolha final: sacrificar-se para garantir a conclusão da transmissão ou tentar salvar Beatriz, arriscando o apagamento total da verdade.

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O Escândalo da Verdade

A chuva ácida não caía; ela corroía. O som metálico contra o telhado do Centro de Processamento era um tamborilar constante, um lembrete de que o tempo físico da cidade estava se esgotando junto com a integridade das estruturas. Elias sentiu o vazio no peito, uma dormência onde antes residia sua identidade digital. Cada rastro, cada conta, cada registro que o definia como cidadão fora incinerado para forçar a abertura do núcleo. Ele era um espectro, um erro de sistema que ainda respirava.

— O upload está em oitenta e dois por cento — a voz de Beatriz era um fio de navalha, cortada pela exaustão. Ela estava sentada no chão, o sangue de um corte na têmpora manchando o uniforme técnico. Seus dedos, trêmulos, ainda dançavam sobre o painel de controle improvisado. — O sistema sabe. Estão incinerando os logs lógicos, tentando apagar a prova antes que ela chegue aos distritos periféricos. Eles querem que a verdade pareça um bug, Elias. Apenas um erro de processamento.

Acima da praça, o cronômetro holográfico do Feed, um deus de neon onipresente, piscou em vermelho agressivo: 00:59:58. A contagem não era natural; o próprio sistema a forçava para baixo, uma tentativa desesperada de antecipar o colapso antes que o Projeto de Expurgos de 1994 fosse revelado.

Um estrondo seco ecoou vindo da escadaria de serviço. As botas magnéticas dos coletores contra o metal soavam como uma sentença. Eles haviam rompido a primeira barreira. Elias olhou para o corredor, sentindo o peso da relíquia — agora destruída, um nada em seu bolso — e a pressão do ar que mudava conforme a facção se aproximava. Ele era o único obstáculo físico entre a autoridade do Feed e a memória que seu pai tentara enterrar.

— Se eles bloquearem o uplink agora, a verdade morre — Beatriz insistiu, a voz subindo uma oitava. — Elias, eles não estão apenas vindo nos prender. Eles estão vindo nos apagar.

Elias percebeu a lucidez gelada do momento. Ele não tinha mais nome, nem status, nem proteção. Ele era apenas um corpo em um telhado sob uma chuva que não perdoava. Ele se aproximou da porta de acesso, sentindo o cheiro de ozônio e o calor dos servidores em curto-circuito.

— Fica aqui — ordenou Elias, a voz rouca. — Se eu sair, posso atraí-los para o setor de ventilação. Você termina a transmissão. É a única chance.

Beatriz girou, os olhos brilhando com uma fúria pragmática que ele nunca vira antes.

— Você não entende? Se você sair, eles te deletam em segundos. Sem sua assinatura, sem sua autoridade, você não tem defesa contra a incineração lógica. Você vai virar estática.

O aríete pneumático atingiu a porta de metal. O som foi o de uma mandíbula quebrada. Elias olhou para o tablet de Beatriz; a barra de upload avançava com uma lentidão torturante. Abaixo, as telas da cidade começavam a tremeluzir, exibindo os documentos assinados por seu pai, a prova irrefutável do crime de estado. O colapso narrativo já havia começado, mas o preço da verdade estava sendo pago em tempo real.

— Se eu fechar a porta, eu te salvo — Elias disse, o desespero lutando contra a clareza. — Mas se eu mantiver a transmissão, não teremos para onde ir. Seremos fantasmas, caçados até o último suspiro.

Beatriz segurou o braço dele, os nós dos dedos brancos. O cronômetro marcou 00:59:00. Abaixo, a cidade tremia sob o peso da revelação. Elias olhou para a porta, que cedia centímetro a centímetro, e para o brilho azulado da verdade que ele finalmente libertara. Ele precisava decidir: a vida de Beatriz ou o fim do Feed.

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