Dívida de Sangue
O ar nos dutos de ventilação do Arquivo Público tinha o gosto metálico de ozônio e ferrugem. Acima deles, o sistema de segurança rugia, selando cada porta de acesso com a precisão mecânica de uma guilhotina. Beatriz arrastava-se pelo metal frio, os joelhos sangrando contra as grades, enquanto o cronômetro do Feed, projetado nos painéis do corredor inferior, brilhava com uma urgência cruel: 93 horas para o expurgo.
— Mais rápido, Elias — ela sussurrou, a voz abafada pelo som da chuva ácida que martelava o teto de zinco do edifício. — Se o lockdown chegar ao setor de exaustão, seremos cozidos vivos.
Elias, logo atrás, mantinha a relíquia apertada contra o peito. Ele parecia pálido, a imagem do pai — o arquiteto daquele pesadelo cíclico — assombrando cada movimento seu. Quando chegaram à antecâmara da saída de serviço, o painel eletrônico bloqueou o caminho com um feixe de luz vermelha. Beatriz não hesitou. Ela conectou seu terminal portátil, agora um pedaço de sucata eletrônica, à porta. Para abri-la, ela precisava sacrificar a última camada de sua identidade digital: o certificado de cidadã de nível três que ainda a mantinha fora da lista de procurados. Com um comando final, a porta cedeu, e eles caíram na noite úmida da cidade, agora fantasmas sem registro.
Sob o viaduto, onde as luzes de neon se estilhaçavam nas poças de óleo, o cobrador da facção os aguardava. Ele não era um homem de conversas. O brilho azulado do Feed refletido na água era a única testemunha de sua exigência: a relíquia ou a vida de Elias. Beatriz sentiu o peso do olhar do cobrador, uma pressão física que ia além da ameaça.
— O acesso que vocês querem não está completo — disse ela, a voz estável apesar do tremor nas mãos. — A relíquia exige uma chave que só o dono original possui.
Ela entregou um drive corrompido, uma armadilha digital disfarçada de tesouro. O cobrador partiu, mas Beatriz sabia que era uma vitória de curto prazo. Eles tinham poucas horas antes que a fraude fosse descoberta.
No abrigo improvisado, um depósito de servidores desativado, Elias analisava os dados restantes.
— Meu pai não apenas arquitetou o expurgo — Elias murmurou, a voz rouca. — Ele deixou uma porta dos fundos. Se usarmos este fragmento, podemos anular a contagem.
Beatriz limpava o sangue da testa, o cinismo transbordando.
— Se o seu pai criou o script do genocídio, a porta dos fundos é uma armadilha para o seu DNA. Você não está encontrando a redenção, está entrando na mira deles.
O cronômetro no Feed saltou de forma anômala, marcando 72 horas. O sistema estava reagindo. De repente, o terminal de Beatriz tremeluziu. Uma mensagem direta da facção surgiu: Elias ou o acesso total ao servidor de transmissão. 72 horas para a entrega. Não tente nos enganar de novo.
Beatriz sentiu o estômago revirar. O sistema não estava apenas monitorando; ele estava caçando. Ela apagou o histórico de conversas, a traição queimando em sua garganta, enquanto Elias, alheio, apontava para a inscrição na relíquia.
— O próximo fragmento está na capela de Santa Cecília. A porta de acesso está sob o altar. Precisamos ir agora.
Beatriz assentiu, mas seu olhar se fixou no cronômetro, que agora contava os segundos com uma cadência assassina. Ela sabia que, ao tocar no terceiro fragmento, o Feed não apenas os encontraria; ele os transformaria no espetáculo final da cidade.