A Queda da Máscara
A chuva em Santa Fé não lavava a sujeira das ruas; ela apenas transformava o ar em uma pasta de ozônio e medo elétrico. Elena agarrou-se à grade de manutenção da torre, os dedos dormentes pelo frio e pela vibração metálica da estrutura. Acima, o logotipo do Santuário brilhava em um azul clínico, cortando a escuridão como uma lâmina. O cronômetro no visor de seu pulso marcava 143 horas e 40 minutos para a consagração permanente. Abaixo, as lanternas da segurança de Tiago varriam a base da torre, dedos famintos em busca de um rastro que ela já deixara para trás.
Ela deslizou o cartão de acesso de Bia pelo leitor oculto. O bipe foi um insulto. O sistema, desenhado por seu pai, Roberto Viana, não era apenas uma barreira; era um organismo digital que a reconheceu instantaneamente. O cursor no tablet de Elena correu freneticamente. O servidor não estava apenas bloqueando o acesso; ele iniciara um protocolo de terra arrasada. O reboot forçado apagaria a lista de nomes de chantagem antes que ela pudesse extraí-la.
O ar dentro da sala de servidores era um túmulo de poeira e estática. Elena conectou o microcircuito — a apólice de seguro de seu pai — à porta de dados principal. O monitor explodiu em uma cascata de código. O "milagre" da consagração não era espiritual; era uma sobrecarga intencional, um pulso de alta voltagem programado para incinerar os arquivos centrais no momento em que o contador chegasse a zero. Tiago não vendia fé; ele estava apagando evidências sob o pretexto de uma celebração divina.
— Maldito seja, pai — murmurou Elena. Seus dedos voavam, acessando a chave mestra. A lista apareceu: juízes, empresários, políticos. Nomes atrelados a dívidas compradas pelo fundo de investimento de Roberto Viana. Ela iniciou o download para um servidor espelho, mas o sistema reagiu com violência. O alarme de intrusão soou, um grito metálico que ecoou por toda a torre.
— Elena, eles estão na escada! — A voz de Bia soou pelo comunicador, distorcida pela interferência dos refletores que Tiago ativara no pátio. — Ele sabe que você está aí. Ele comprou a segurança. Não há para onde correr.
Elena ignorou o pânico. O download estava em 60%. O rastreador no chip piscava em vermelho, um pulso de agonia digital. Ela precisava transmitir a prova agora, ou a verdade morreria com ela. Ela desviou o sinal para a frequência da live de Bia, forçando o acesso à rede de transmissão oficial.
— Bia, escute — Elena disse, a voz firme apesar do sangue que escorria de um corte na mão. — Se você quer sair dessa dívida, transmita o que estou enviando. Agora.
O sistema de segurança arrombou a porta principal com um estrondo de metal contra metal. Elena não se virou. Ela subiu na estrutura da plataforma, com o cabo de rede esticado até o limite, enquanto o sinal de transmissão da cidade oscilava na tela. Ela tinha 30 segundos antes que os guardas a alcançassem. No palco, Bia olhou diretamente para a câmera, sabendo que Elena a observava, o contador marcando 48 horas para o fim de tudo.