Chapter 5
O mármore da cobertura de Ricardo Valente não era apenas um revestimento; era uma sentença. Ao cruzar o limiar da ala leste, Elena sentiu o peso do contrato de noivado como uma corrente invisível, mas palpável. Léo, ao seu lado, segurava o dinossauro de plástico como um escudo, seus olhos infantis varrendo a vastidão fria da sala com uma cautela que partia o coração de Elena. O luxo ali não era um convite, era uma forma de vigilância.
— A ala leste foi preparada para vocês. Não espero que se sintam em casa, apenas que não perturbem a rotina da residência — a voz de Ricardo cortou o ar, desprovida de qualquer calor. Ele não a olhou. Seus olhos estavam fixos em um dossiê sobre a escola de Léo, um documento que ele parecia ler pela centésima vez.
Elena deu um passo à frente, forçando a voz a manter a firmeza. — Não precisamos de luxo, Ricardo. Precisamos apenas de espaço para manter a normalidade que nos resta.
Ricardo finalmente ergueu os olhos. O azul gélido de seu olhar percorreu Elena, parando por um segundo longo demais na curva de seu pescoço antes de descer para as caixas de papelão que ainda estavam no chão. Ele caminhou até uma delas, ignorando o protesto silencioso de Elena, e a abriu com um movimento impiedoso. Seus dedos longos remexeram os pertences de Léo até encontrar um envelope pardo, levemente amarelado. Elena sentiu o mundo parar. Era o documento que ela acreditava ter enterrado há dois anos.
Na manhã seguinte, o café da manhã tornou-se um tribunal. A bancada de mármore estava tão fria quanto a postura de Ricardo. Ele folheava o tablet com a calma de um juiz proferindo uma sentença, enquanto Léo, na outra ponta da mesa, tentava equilibrar um talher, alternando o olhar entre a mãe e o homem que agora ocupava o centro de seu mundo.
— Os registros escolares de Léo foram atualizados — Ricardo começou, sem desviar o olhar da tela. — Mas notei algo curioso, Elena. Em sua documentação de admissão, há um hiato de vinte e quatro meses. Um silêncio absoluto entre o seu último emprego em Londres e o seu retorno ao Brasil. Onde você estava realmente?
Elena sentiu o estômago revirar, mas manteve a coluna ereta. A dignidade era sua única armadura. — O passado não é uma cláusula do nosso contrato, Ricardo. Você pagou pela fachada, não pela biografia completa.
Ele pousou o tablet e inclinou-se, invadindo seu espaço pessoal. O perfume amadeirado dele, misturado ao cheiro de café expresso, era uma lembrança constante de que ela estava em território inimigo. — O contrato é um ativo, Elena. E ativos que escondem segredos perdem o valor. Pense nisso antes de nossa aparição pública hoje à noite.
O salão do Hotel Fasano, horas depois, pulsava com o zumbido de mil conversas, mas, para Elena, o ambiente era uma câmara de vácuo. Ela ajustou o vestido de seda, sentindo o peso do olhar de Ricardo como uma corrente. Ele estava ao seu lado, impecável, a postura de quem possuía a cidade inteira.
— Lembre-se — murmurou ele, a voz gélida. — O noivado é um ativo. Não o desvalorize com hesitações.
Antes que ela pudesse retrucar, Patrícia, uma socialite cujo sorriso era tão afiado quanto suas joias, aproximou-se com uma taça de champanhe. — Ricardo, querido, que surpresa vê-lo com... companhia — Patrícia deixou a frase flutuar, carregada de insinuações. — Eu estava justamente comentando com as meninas sobre a rapidez com que você substituiu seu padrão de exigência. Elena, é um nome tão comum para alguém que parece ter surgido do nada. Onde exatamente você se escondia antes de ser 'resgatada' pelo Ricardo?
O silêncio no salão tornou-se asfixiante. A dignidade de Elena exigia uma resposta, mas qualquer palavra poderia trair o segredo de Léo. Antes que ela pudesse formular uma defesa, Ricardo deu um passo à frente, colocando a mão na cintura de Elena com uma possessividade que fez o sangue dela gelar.
— O passado de minha noiva é um assunto que só me diz respeito, Patrícia — a voz de Ricardo era um chicote, pública e devastadora. — Se a sua preocupação com a vida alheia fosse metade da sua eficiência em seus próprios negócios, talvez você não estivesse à beira da falência.
Patrícia empalideceu, recuando sob o olhar implacável de Ricardo. Ele a havia humilhado para proteger a imagem de Elena, mas o preço estava escrito em seus olhos. De volta à cobertura, a tensão explodiu. Ricardo, parado diante da lareira, segurava o soldadinho de chumbo de Léo.
— Você me deve, Elena — ele disse, a voz destituída de calor. — Minha proteção tem um custo. Quero a verdade sobre aqueles dois anos. Agora.
Léo entrou na sala, seus passos pequenos ecoando no mármore. Ele parou, olhando para o soldadinho na mão de Ricardo. Sem hesitar, com a inocência que apenas uma criança possui, ele estendeu a mão.
— Você pode devolver, papai? Eu esqueci ele na sua mesa.