Chapter 4
O mármore da bancada na cobertura de Ricardo Valente emanava um frio que parecia atravessar o blazer de Elena. À sua frente, o café esfriava, uma mancha escura e estagnada que refletia a paralisia de sua própria vida. Ricardo, impecável em sua camisa de seda sem gravata, mantinha os olhos fixos em um tablet. A luz azul da tela projetava sombras duras sobre seu rosto, acentuando a linha severa de sua mandíbula enquanto ele revisava o relatório sobre a fundação escolar de Leo.
— A Valente revisou o currículo — Ricardo começou, a voz desprovida de qualquer inflexão que não fosse a autoridade de um CEO em uma negociação hostil. — Leo está avançado em matemática, mas carece de supervisão extracurricular. O colégio concorda que um tutor pessoal é o passo lógico.
Elena sentiu o estômago revirar. Não era uma sugestão; era um decreto de ocupação. Cada movimento de Ricardo em relação à educação de seu filho era um tijolo a mais no muro que ele erguia ao redor deles.
— Ele não precisa de um tutor, Ricardo. Ele precisa de rotina. A que tínhamos antes de você decidir que minha vida precisava de um patrocínio — a voz dela saiu firme, apesar da pulsação acelerada em suas têmporas.
Ricardo finalmente levantou o olhar. Era um olhar que não buscava aprovação, mas falhas. Ele deslizou um documento pela mesa, uma página impressa com dados que Elena reconheceu instantaneamente como sua própria história — aquela que ela mantivera sob sigilo durante os vinte e quatro meses de seu exílio. O silêncio que se seguiu foi um tribunal silencioso. Ele não estava apenas protegendo-a do escândalo; ele estava caçando os segredos que a mantinham viva.
A tensão na sala foi cortada pela entrada de Leo. O menino caminhava com uma hesitação incomum, os olhos fixos na mão de Ricardo, que repousava sobre a mesa. Ali, entre o tablet e os documentos legais, jazia o soldadinho de chumbo que Leo esquecera na sala de reuniões da Valente Holdings.
— Você encontrou — a voz de Leo era pequena, carregada de uma expectativa que fez Ricardo travar.
O bilionário estendeu a mão, o brinquedo posicionado entre o polegar e o indicador. Havia algo na forma como ele segurava o objeto — com uma reverência involuntária, quase protetora — que fez o ar no ambiente mudar. Quando Ricardo olhou para Leo, a frieza habitual em seu olhar vacilou, substituída por uma sombra de confusão. Ele parecia estar tentando decifrar um código genético em um rosto que, por um segundo, espelhou o seu próprio em uma semelhança gestual impossível de ignorar.
— É uma peça curiosa para um menino da sua idade, Leo — disse Ricardo, a voz estranhamente rouca. — Por que ele é tão importante?
Elena interveio, sentindo o perigo escorrer pelas paredes da cobertura. — É apenas um brinquedo, Ricardo. Deixe-o em paz.
Leo, contudo, não desviou o olhar. Ele deu um passo à frente, e o silêncio que se formou entre os dois era um abismo que Elena não podia cruzar. Ricardo recuou, recolhendo o soldadinho como se o contato com o menino tivesse queimado sua pele. A vulnerabilidade foi passageira, mas o estrago estava feito: Ricardo agora sabia que sua investigação sobre o passado de Elena colidia frontalmente com a realidade pessoal que ele tentava, a todo custo, negar.
Quando a governanta levou Leo para o lanche, o escritório de Ricardo tornou-se um bunker. Ele não se levantou da cadeira de couro, apenas empurrou uma pasta de couro fino em direção a Elena.
— Você cometeu um erro de cálculo, Elena — disse ele, a voz voltando a ser um bisturi. — Achar que a discrição era parte do nosso contrato foi o seu primeiro equívoco. O segundo foi acreditar que eu não notaria a frequência com que o seu passado se recusa a ficar enterrado.
Elena apertou as mãos atrás das costas, recusando-se a tremer. — O contrato era claro sobre a minha vida privada. Leo não é um ativo que você possa auditar.
Ricardo soltou uma risada seca, sem humor. — O contrato, Elena, é um documento vivo. E, dado o risco que sua história representa para a imagem que construímos, ele acaba de ser atualizado.
Ele apontou para uma cláusula destacada em vermelho. A moradia conjunta. Não era mais uma opção; era uma obrigação contratual.
— A partir de hoje, vocês se mudam para a ala leste. Se eu vou garantir que o seu passado não destrua o meu futuro, preciso que vocês estejam sob o meu teto, onde posso ver cada movimento.
Elena sentiu o chão ceder. Ela estava presa, não apenas pela necessidade de proteção, mas pelas correntes de um papel assinado que agora a forçava a viver sob o mesmo teto que o homem que a abandonara — e que, em breve, descobriria exatamente o que ela tentava esconder.