Cirurgia de Status
O restaurante L’Essence nos Jardins não servia apenas alta gastronomia; servia status. Naquela noite, o ar estava denso, carregado com o perfume caro e o medo palpável dos aliados de Ricardo Viana. Lucas Viana entrou no salão privativo com a calma de quem já havia lido o veredito final do processo. O silêncio que o recebeu não era de reverência, mas de uma expectativa cruel. Magnatas cujas fortunas dependiam da Viana Medical o observavam como se ele fosse um erro de sistema prestes a ser corrigido.
— Lucas, você tem a audácia de aparecer aqui após o que fez ao Arnaldo? — Otávio, um dos principais investidores, girou o anel de sinete no dedo, a mão trêmula traindo sua fachada de arrogância. — A Viana Medical é um pilar de São Paulo. Você é apenas um cirurgião que esqueceu seu lugar na hierarquia.
Helena, à cabeceira da mesa, observava com uma neutralidade estudada. Lucas não se sentou. Ele deslizou um tablet sobre a toalha de linho branco, exibindo um gráfico de disparidade em tempo real entre a compra de insumos hospitalares e os registros de faturamento.
— O pilar está podre, Otávio — a voz de Lucas cortou o ar, fria e desprovida de qualquer hesitação. — Seus ativos não estão em risco por minha causa, mas pela fraude contábil que o Dr. Arnaldo detalhou. Se retirar seu capital agora, ainda terá o que salvar. Se esperar, será o primeiro a cair quando a auditoria se tornar pública.
A arrogância na sala evaporou, substituída por um desconforto palpável. O poder de Lucas não vinha de um sobrenome, mas da informação cirúrgica que ele agora detinha.
A atmosfera, contudo, foi rompida pelo Deputado Mendes. O político, pilar das alianças de Ricardo, começou a tossir — um ruído seco e agudo de uma obstrução de vias aéreas superiores. Em segundos, sua pele tornou-se cinza. Os médicos presentes, temendo a responsabilidade de tocar em uma figura pública, paralisaram-se.
— Afastem-se — ordenou Lucas, a autoridade em sua voz silenciando os protestos.
Ele não pediu licença. Com a precisão de um predador, Lucas contornou a mesa. O colapso era um edema de glote fulminante. Com um movimento técnico e brutal, Lucas utilizou um utensílio de mesa, estabilizando a via aérea do deputado ali mesmo, sobre o mármore do restaurante. Enquanto o político voltava a respirar, o olhar de Lucas cruzou com o de Helena. Ela não via mais um parente deserdado, mas um homem que controlava a vida e a morte de quem movia a cidade.
Mais tarde, no terraço privativo, a frieza de Helena era uma máscara que começava a rachar. Ela segurava o tablet com as mãos trêmulas, a luz azul revelando os documentos de uma conta offshore vinculada diretamente ao CPF de Ricardo Viana, com depósitos que coincidiam com surtos de infecção hospitalar.
— Isso não é apenas uma auditoria, Lucas — ela murmurou, a voz quase inaudível contra o zumbido da cidade. — Você não quer apenas recuperar seu lugar. Você quer a destruição total da família. Se isso vazar, a Viana Medical deixa de existir.
Lucas invadiu seu espaço pessoal, o olhar impassível como mármore.
— O legado deles foi construído sobre vidas descartadas como lixo hospitalar. Minha consultoria é um bisturi, Helena. Estou removendo o tecido necrosado.
Helena percebeu, naquele instante, que sua aliança com ele não era uma parceria de negócios, mas uma cumplicidade perigosa. Ela estava conectada a um estrategista que não temia ninguém, e o segredo que agora carregava — a prova de que Ricardo Viana lucrava com a morte — era o peso que poderia custar sua própria posição social, ou talvez, sua vida.