O Contra-Ataque do Patriarca
O ar na sala de reuniões da Viana Medical não era apenas condicionado; era estéril, carregado com o cheiro metálico de uma autoridade que se desintegrava. Ricardo Viana, o homem que há décadas ditava o ritmo do mercado de saúde em São Paulo, estava imóvel na cabeceira da mesa de mogno. Suas mãos, antes firmes ao assinar contratos de exclusividade, agora tremiam levemente sobre o documento de rescisão de Alencar.
Lucas Viana entrou sem ser anunciado. O som de seus passos no mármore polido não era de um subordinado, mas de um auditor. Ele não buscou a cabeceira; puxou uma cadeira lateral, o ruído da madeira contra o piso soando como um tiro no silêncio da sala.
— Você tem ideia do que fez? — A voz de Ricardo era um sussurro perigoso, destilando um veneno polido. — O Sr. Alencar está em confusão pós-traumática. Você usou um estilete de jade, um objeto não estéril, para realizar um procedimento invasivo. Isso é charlatanismo, Lucas. É a ruína da nossa reputação.
Lucas observou a pulsação na têmpora de Ricardo. O patriarca estava perdendo o controle, e o medo — o medo real de quem vê o castelo de cartas ceder — era visível em seus olhos.
— O Sr. Alencar está perfeitamente lúcido, Ricardo. Ele está lúcido o suficiente para auditar cada centavo que a Viana Medical desviou nos últimos cinco anos — Lucas respondeu, sua voz cortante, desprovida de qualquer hesitação. Ele deslizou um pendrive de metal sobre a mesa. — A auditoria começa agora. E eu sou o novo consultor técnico. O contrato não foi apenas rescindido; ele foi transferido para minha supervisão direta.
O silêncio na sala tornou-se absoluto. Os diretores, antes aliados de Ricardo, baixaram os olhos para seus tablets, evitando o contato visual com o patriarca. A granada estava no centro da mesa, e Ricardo sabia que não havia como desarmá-la.
Lucas não esperou pela resposta. Ele se levantou, a autoridade de sua postura drenando o oxigênio da sala, e saiu em direção ao Hospital Santa Cecília. Seu alvo era o Dr. Arnaldo, o diretor clínico e o elo mais fraco da rede de corrupção de Ricardo.
Ao entrar no escritório de Arnaldo, Lucas não precisou de palavras. O diretor, que passara anos validando cirurgias fantasmas, tentou ocultar um prontuário sob uma pasta de couro, mas suas mãos tremiam tanto quanto as de Ricardo.
— Lucas? Você não deveria estar aqui — Arnaldo gaguejou, o rosto cinzento. — A segurança foi instruída a...
— A segurança é para intrusos, Arnaldo. Eu sou o novo consultor técnico do Sr. Alencar — Lucas interrompeu, projetando uma sombra longa sobre a mesa. Ele abriu um tablet com a auditoria detalhada. — O erro de dosagem no lote 402, aquele que você tentou omitir no semestre passado? Está registrado aqui. O Ministério Público não precisa de muito para transformar sua estadia neste hospital em uma cela.
Arnaldo desabou na cadeira. A derrota era total. Lucas saiu com a confissão assinada, o primeiro prego no caixão da gestão de Ricardo.
No trigésimo andar da Viana Medical, o escritório de Ricardo era um cenário de caos contido. Helena, a socialite que observava o jogo de poder com uma frieza calculada, estava encostada na parede, observando o gráfico de ações da empresa oscilar perigosamente.
— Ele não é apenas um médico, Ricardo — Helena disse, sua voz cortando o ar. — Ele é um cirurgião que conhece cada costura da sua estrutura. Se Lucas assumiu a consultoria, ele está desenterrando os cadáveres que você enterrou sob o nome da empresa.
Ricardo virou-se, a máscara de filantropo irremediavelmente rachada. — Ele é um fracassado. Vou revogar a licença dele antes do pôr do sol. Arnaldo está cuidando disso no conselho.
Helena deu um sorriso sem calor, deslizando um tablet sobre a mesa. O dossiê que ela financiara era impecável: transações bancárias, nomes de laranjas e a prova de que Arnaldo, o aliado de Ricardo, acabara de traí-lo para salvar a própria pele. Ricardo pegou o telefone, esperando uma garantia de lealdade, mas o que ouviu do outro lado foi o som de uma linha sendo ocupada por auditores.
O diretor do hospital, em pânico total, acabara de receber a notificação: Lucas Viana assumira o controle total. O poder de Ricardo estava sendo drenado em tempo real, e Helena, observando tudo, começou a entender que Lucas não era um parente fracassado, mas um jogador perigoso cujo próximo movimento ela precisava descobrir — antes que o segredo de sua aliança se tornasse uma sentença de morte.