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Chapter 3: A Primeira Reversão

Lucas completa a administração da pralidoxima, estabiliza Heitor Mendonça e força o reconhecimento público de sua competência. Heitor assina o contrato de jade sob mediação de Lucas, que altera cláusulas desfavoráveis aos Viana. Ricardo é humilhado ao ver sua autoridade ignorada. Lucas revela possuir provas de que a intoxicação foi sabotagem interna da família, abrindo uma ameaça maior.

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A Primeira Reversão

O peito de Heitor Mendonça subia e descia em arfadas curtas, mas regulares. A atropina já havia quebrado a pior da bradicardia — pulso subindo de 38 para 62 em dezoito minutos —, mas a janela para a pralidoxima estava se fechando rápido. Vinte e oito minutos desde o colapso. Lucas segurava a seringa preparada com 1 g diluída, o polegar firme no êmbolo, olhos fixos nas pupilas ainda mióticas do magnata.

Ricardo avançou mais uma vez, ombro batendo contra o de Beatriz, que não recuou um centímetro. — Tirem esse fracassado daqui antes que ele mate o homem de vez!

A voz saiu rouca, quase quebrada. Dois seguranças hesitaram; o terceiro já havia recuado quando Beatriz plantara o corpo entre eles e Lucas minutos antes. Ela não ergueu a voz. Apenas fixou Ricardo com aquele olhar que fazia homens mais velhos engolirem o orgulho.

— Se ele morrer agora, Ricardo, você explica amanhã por que perdeu duzentos milhões em jade bruto por birra familiar. Metade do salão já está filmando.

Ricardo virou o rosto como se tivesse levado um tapa invisível. Seus olhos varreram o círculo de convidados — celulares erguidos, murmúrios crescendo. Pela primeira vez naquela noite, o patriarca pareceu sentir o peso real do público.

Lucas nem piscou. Injetou a pralidoxima devagar, observando cada gota descer pela veia. Sessenta segundos. Noventa. A respiração de Mendonça ganhou amplitude; o tom azulado começou a recuar das unhas. Saturação subindo: 89… 92… 94. Ele verificou o acesso venoso, ajustou o soro com atropina em manutenção e só então ergueu os olhos.

O médico de jaleco caro — o “melhor de São Paulo”, segundo Ricardo — deu um passo à frente, voz trêmula. — A dose… pode causar crise colinérgica paradoxal. Você está arriscando—

— A dose é a correta para intoxicação grave — cortou Lucas, sem virar o rosto. — O que está arriscado é o ego de quem achou que esperar era opção.

Silêncio cirúrgico. Não o silêncio educado de leilão. O silêncio de quem acabou de ver o tabuleiro virar.

Heitor tossiu uma vez, rouco. Seus olhos se abriram em fresta. A mão direita moveu-se devagar até tocar o antebraço de Lucas. — Você… — a voz saiu fraca, mas atravessou o salão.

Lucas se inclinou. — Fique quieto. Ainda não acabou.

Ricardo deu um passo atrás involuntário. Seus olhos iam de Mendonça para Lucas, procurando uma brecha que já não existia.

Beatriz se agachou ao lado de Lucas, olhando o monitor com atenção clínica. — Pupilas reagindo. Você inverteu o quadro em menos de meia hora.

Lucas não respondeu. Apenas limpou o suor da testa com o dorso da mão e se levantou devagar. O salão inteiro assistia. Celulares ainda gravavam. A narrativa havia mudado: do “fracasso dos Viana” para o homem que eles tentaram apagar salvando o contrato que os mantinha vivos.

Heitor apertou o braço de Lucas com mais força. — Nome.

— Lucas Viana.

O magnata piscou devagar, encaixando a informação. — Viana… sobrinho do…

— Exatamente.

Ricardo fez menção de falar. Heitor ergueu a mão livre — trêmula, mas autoritária. — Calado, Ricardo.

Duas palavras. Suficientes para fazer o patriarca engolir o resto.

Heitor respirou fundo, tossiu de novo, então olhou direto para Lucas. — O contrato… assino agora. Mas só com você na mesa.

O murmúrio explodiu em vozes abafadas. Câmeras viraram. O “melhor de São Paulo” recuou até encostar na parede.

Lucas não sorriu. Apenas verificou o monitor mais uma vez. — Primeiro estabilizo o senhor completamente. Depois conversamos negócios.

Ele virou-se para Ricardo pela primeira vez desde a injeção inicial. Não havia triunfo no olhar. Apenas frieza.

— Você quase matou seu maior cliente para não me deixar tocar nele. Lembre-se disso quando o conselho perguntar por que o carregamento de amanhã depende de mim.

Ricardo abriu a boca. Nada saiu.

O advogado se aproximou com o envelope lacrado. Heitor fez sinal para que entregasse a Lucas. Ele abriu o documento, leu as cláusulas principais em segundos e riscou uma linha com caneta vermelha.

— Cláusula de exclusividade mata vocês em dezoito meses. Mendonça fica com opção de fornecedor secundário. Vocês mantêm o principal, mas perdem o monopólio.

Heitor deu um riso curto, dolorido. — Feito.

Ricardo pegou a caneta como se queimasse. Assinou. O som ecoou mais alto que qualquer grito daquela noite.

Quando a pasta voltou para Heitor, o magnata olhou diretamente para Lucas. — Você salvou minha vida. E salvou o acordo. O que quer em troca?

Lucas fechou a maleta com um clique seco. — Por enquanto… só que ninguém mais tente me tirar do caminho quando alguém estiver morrendo.

Silêncio absoluto.

Beatriz se ergueu ao lado dele, o sorriso mínimo quase imperceptível. — Parece que a noite está apenas começando.

Lucas pegou o estojo e olhou o relógio. Trinta e sete minutos desde o colapso.

Então, baixo o suficiente para que só Ricardo e Beatriz ouvissem:

— O organofosforado não entrou na taça por acidente. Alguém da sua diretoria assinou a entrega da última fornada de cálices. Tenho as assinaturas digitais arquivadas.

Ricardo congelou.

Lucas guardou a maleta no ombro e caminhou em direção à saída lateral, deixando o patriarca encarando o vazio onde antes estava sua certeza de controle.

O salão inteiro assistia à saída dele — não mais como o sobrinho desprezado, mas como o homem que acabara de reescrever quem mandava naquela mesa.

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