O Leilão das Máscaras
O salão do Palácio das Artes cheirava a dinheiro velho e ansiedade nova. Lucas Viana carregava a pasta de couro preta com os catálogos de jade imperial como se fosse uma bandeira branca. Aos 29 anos, ainda era tratado como o garçom da família. Ricardo Viana, seu tio, ocupava o centro da mesa principal, o charuto cubano girando entre os dedos enquanto falava alto para os investidores.
— Jade de verdade exige visão, capital e nome limpo — disse Ricardo, o tom didático de quem já ganhou antes de começar. Deu um tapa leve, mas audível, no ombro de Lucas. — Meu sobrinho aqui tentou medicina. Não deu certo. Por isso ele carrega papel. É onde ele fica melhor.
As risadas vieram em ondas contidas, educadas, mas cortantes. Lucas sentiu o calor subir pelo pescoço, mas manteve os olhos fixos na mesa. Não respondeu. Não precisava. O tremor na mão direita de Ricardo — aquele tremor que aparecia quando o caixa apertava — já dizia o suficiente. A empresa estava a um lance de afundar. Se o contrato com Heitor Mendonça não fechasse hoje, os Viana perderiam tudo: as minas na Myanmar, os estoques em Singapura, a casa na avenida Paulista. Tudo.
Do outro lado da mesa, Beatriz Lacerda observava. Não ria. Seus olhos escuros passavam de Ricardo para Lucas com a mesma atenção clínica que um joalheiro dedica a uma pedra bruta. Ela ergueu o martelo de prata.
— Lote 47. Jade imperial, procedência certificada. Lance inicial de doze milhões. Quem abre?
Heitor Mendonça, o comprador chinês-brasileiro que decidia o futuro dos Viana, levantou dois dedos. O lance subiu rápido. Ricardo sorria como se já tivesse vencido. Lucas contava os segundos no relógio de pulso. O mesmo relógio que usava nas plantões noturnos que ninguém da família conhecia.
Então Mendonça parou de falar.
Seus dedos apertaram a borda da mesa. Uma cor violeta subiu rápido pelo pescoço, diferente de qualquer infarto comum. Cianose periférica atípica. Pupilas dilatando assimétricas. Sudorese fria. Lucas reconheceu o padrão em menos de quatro segundos: intoxicação aguda por composto organofosforado modificado. Provavelmente no uísque que o garçom acabara de servir. Alguém ali queria Mendonça morto — e queria que parecesse natural.
O corpo caiu de lado, batendo no mármore com um som seco que calou o salão inteiro. Gritos explodiram. Dois médicos contratados correram, um deles já abrindo a maleta de emergência. Aplicaram oxigênio, massagearam o peito, gritaram por desfibrilador. Nada funcionava. A saturação caía. Trinta e oito segundos desde o colapso.
Ricardo ficou branco. Seus olhos foram do corpo para os investidores que já se afastavam, celulares na mão, prontos para ligar para seus advogados. O contrato. A assinatura. A salvação. Tudo escorria pelo ralo junto com a respiração de Mendonça.
Lucas deu o primeiro passo à frente.
— Afaste-se — ordenou Ricardo, a voz rouca de pânico e raiva. Ele agarrou o braço do sobrinho com força, os dedos cravando na carne. — Você não vai tocar nele. Se ele morrer, morre por falha médica. Se você encostar um dedo e falhar, a vergonha cai em cima de todos nós. Prefiro perder a empresa a ver você bancar o herói.
O salão inteiro assistia. Os primos de Lucas trocaram olhares nervosos. Beatriz Lacerda baixou o martelo devagar, os olhos fixos nos dois homens. O relógio de Lucas marcava 1:12 desde o colapso. Tempo cerebral restante estimado: menos de quatro minutos antes de dano irreversível.
Lucas olhou para o tio. Não havia ódio visível em seu rosto, apenas uma calma cirúrgica.
— Solte meu braço, tio. Ou explica para os investidores por que preferiu deixar o homem morrer a me deixar tentar.
Ricardo hesitou. O aperto afrouxou por meio segundo — o suficiente. Lucas se soltou com um movimento seco e avançou, ignorando os gritos, os flashes dos celulares, o pânico geral. Ajoelhou-se ao lado de Mendonça. Abriu a maleta médica abandonada pelos “profissionais”. Encontrou o que precisava: epinefrina 1:1000, atropina, um frasco de pralidoxima que milagrosamente estava ali.
Enquanto preparava a injeção intramuscular, ouviu Ricardo atrás dele:
— Se você errar, eu acabo com você.
Lucas não virou a cabeça.
— Se eu errar, tio, a família acaba sozinha.
A agulha entrou. O salão prendeu o fôlego. O tempo agora pertencia a Lucas Viana — e à vingança fria que ele carregava há sete anos.