Chapter 5
O som da retroescavadeira era um ritmo de execução. Elias observou o casarão na Rua das Flores, o endereço extraído do ledger, ser reduzido a entulho sob a chuva ácida de São Paulo. Não era uma reforma; era uma limpeza cirúrgica. O passado de Beatriz estava sendo triturado em tempo real, e com ele, a única prova física da conspiração que ele ainda não havia digitalizado. Restavam 115 horas para o leilão, e o tempo agora tinha cheiro de poeira e concreto úmido.
Elias avançou, ignorando o cordão de isolamento. Um homem de colete refletivo, com o rosto marcado pela indiferença de quem é pago para não ver, bloqueou seu caminho.
— Área restrita. Sem credencial, você não entra — rosnou o encarregado.
Elias não recuou. Ele puxou o cartão magnético que arrancara do Enforcer na noite anterior. O plástico negro, com o logotipo da holding que financiava a liquidação dos Lane, brilhou sob os holofotes. O encarregado empalideceu, recuando um passo. Elias não precisou dizer nada; a autoridade daquele objeto era uma sentença de morte para quem ousasse questioná-lo. Ele entrou no canteiro, mas era tarde demais. As paredes que guardavam os registros das transferências de Beatriz haviam virado pó. Helena não estava apenas escondendo evidências; ela estava apagando a existência da sobrinha do mapa urbano.
Sem carro, sem celular e agora sem o local físico, Elias precisava se tornar um fantasma. Ele caminhou até uma oficina clandestina no extremo da Zona Leste, um galpão onde o cheiro de óleo queimado mascarava o odor de desmanche. O dono, um homem de mãos encardidas chamado Rocha, mal levantou os olhos.
— Não faço serviço para quem está sendo caçado — resmungou Rocha, limpando uma peça de motor.
Elias soltou o relógio de pulso sobre a bancada: ouro maciço, brasão dos Lane, o último item de valor real que possuía. O silêncio que se seguiu foi o preço de sua invisibilidade. Rocha pegou o relógio, avaliou-o com um olhar clínico e, sem palavras, deslizou um celular descartável e as chaves de uma moto velha sobre a mesa.
— Saia pelos fundos. O Enforcer já está mapeando os arredores. Você é um alvo móvel agora.
Elias montou na moto sob o viaduto da Alcântara Machado, a chuva batendo como chicotes em seu capacete. Ele ativou o aparelho. Uma notificação de nuvem privada piscou: um arquivo de áudio de Beatriz. Ele conectou os fones, limpando o ruído branco com o software improvisado. A voz de Beatriz surgiu, cortante como vidro.
— Elias... se você está ouvindo isso, o ledger não é mais um segredo. E você, infelizmente, já foi classificado como uma variável de risco pelo sistema.
Não era um pedido de socorro. Era um aviso frio. O sistema não apenas a vendia; ele a catalogava como um ativo a ser descartado, e Elias acabara de ser marcado com o mesmo selo.
O Enforcer o encontrou no beco industrial a dois quilômetros dali. O homem bloqueou a saída, a silhueta imponente contra a penumbra.
— Você está colecionando evidências, Elias, mas esqueceu que o dono do terreno sempre remove o lixo — disse o Enforcer, a mão repousando sobre o coldre.
Elias sentiu o peso do ledger contra o peito. Ele não era mais o sobrinho ingênuo; ele era o homem que segurava o fósforo perto do barril de pólvora.
— O fundo de investimento não vai gostar de saber que o pagamento da liquidação está sendo desviado por um capataz que se acha estrategista — Elias disparou, exibindo o celular com a gravação de Helena.
O Enforcer hesitou. A exposição de sua fonte de financiamento era o único medo que superava sua lealdade à holding. Ele recuou, dando a Elias a brecha necessária para fugir. Ele escapou sabendo que o tempo para o leilão era de 110 horas, e que, marcado pelo sistema, cada passo seu agora era uma contagem regressiva para a eliminação total.