O Preço da Verdade
O trinco magnético do bunker em Mairiporã não cedeu com um clique, mas com um estalo seco, o som de uma sentença sendo assinada. A porta de aço, pesada como uma lápide, selou-se. Lucas puxou a maçaneta até os dedos arderem, mas o metal estava morto. Atrás dele, Beatriz não gritou; ela apenas se encostou ao concreto, a luz azulada do tablet refletindo em seus olhos como um farol em meio à tempestade.
— Ele sabia — disse ela. A voz era um fio de navalha. — Ele deixou a porta aberta para garantir que entrássemos os dois no mesmo caixão.
Um zumbido eletrônico cortou o ar viciado. O monitor suspenso no teto ganhou vida. O rosto do Patriarca Valente surgiu, nítido, imperturbável, sentado em seu escritório blindado na capital. Ele parecia um deus observando formigas sob uma lente de aumento.
— Lucas, meu rapaz — a voz do Patriarca ecoou, limpa, sem a interferência da chuva que castigava o telhado do bunker. — Você sempre teve uma lealdade admirável, mas um timing terrível. Aquele cartão de acesso? Estava marcado desde o momento em que você saiu da garagem. Você não invadiu; você foi conduzido.
Lucas avançou até a tela, os punhos cerrados. O oxigênio parecia rarefeito, o pânico instalando-se como uma névoa densa.
— O jogo acabou, Valente. O Livro Negro não é mais um segredo de família. Ele está na rede.
— É um arquivo em um servidor privado que está sendo purgado agora pelo protocolo de supressão de incêndio — o Patriarca sorriu, um gesto que não alcançava os olhos. — Dez minutos, Lucas. Dez minutos para decidir se quer ser um mártir ou apenas um erro de sistema. O bunker será inundado com supressor químico. Vocês não terão ar suficiente para verem o arquivo ser deletado.
Beatriz deu um passo à frente, ignorando o tremor nas mãos.
— O sistema detectou o IP, Lucas. Ele quer que a gente desapareça junto com a prova.
Lucas não respondeu. Seus dedos voavam pelo painel de controle que ele havia forçado, ignorando o som de botas militares marchando no corredor superior. O Patriarca não viria pessoalmente; ele enviaria os cães de guarda para garantir que a herdeira fosse 'recuperada' e o investigador, descartado. O cronômetro no canto da tela marcava 47 horas e 12 minutos para o fim de tudo. Cada segundo custava o que restava de sua segurança.
— Se eu abrir a porta, eles entram — Lucas murmurou, a mandíbula travada. — Se eu não abrir, eles explodem a entrada. O sistema de segurança é uma armadilha. Ele está esperando o upload para disparar a limpeza total.
— Então faça de outra forma — ela disse, firme. — O servidor central da Valente é espelhado aqui. Se você apagar sua identidade digital, se tornar um fantasma para o sistema, você pode injetar o Livro Negro diretamente no backbone da rede pública antes que o protocolo de segurança perceba.
Lucas entendeu o custo. Apagar sua identidade digital significava deixar de existir para qualquer banco de dados, qualquer registro, qualquer vida que ele tentara reconstruir. Era sua última âncora com o mundo real. Ele olhou para Beatriz, depois para o monitor. Com um suspiro, ele começou a digitar os comandos de autodestruição de sua própria existência. O sistema brilhou em verde, reconhecendo a autorização, e a porta do bunker destravou com um suspiro hidráulico. Imediatamente, um alerta vermelho ecoou por toda a propriedade.
O som de passos pesados ecoou pelo corredor de concreto, um ritmo marcial. A segurança privada estava caçando. Lucas observava a barra de progresso: 50%. O Livro Negro estava sendo extraído, bit a bit, para um servidor descentralizado.
— Lucas, eles estão aqui — Beatriz sussurrou, apoiando-se na mesa de metal, os ferimentos das últimas horas cobrando seu preço.
Lucas olhou para a porta de aço. Ele era um rato em uma ratoeira de luxo. Ele olhou para o relógio no pulso de Beatriz: 47 horas e 12 minutos para o prazo final. Se ele interrompesse o upload agora para protegê-la, a prova do crime ambiental morreria com eles. Se ele continuasse, Beatriz ficaria exposta ao capricho violento dos seguranças.
— Não vou deixar você — ele respondeu, posicionando-se entre o terminal e a porta que começava a ser forçada por fora.
O primeiro estrondo na porta fez o concreto vibrar. A barra de progresso saltou para 60%. O dilema era absoluto: a vida de Beatriz ou a prova que derrubaria o império. Quando a porta finalmente cedeu e os seguranças armados invadiram a sala, Lucas se lançou contra o primeiro homem, sabendo que a transmissão já estava em curso, mas que o custo de sua escolha estava apenas começando a ser cobrado.