O Cerco
A chuva em Mairiporã não caía; ela chicoteava o telhado do bunker como se tentasse obliterar qualquer vestígio de humanidade ali dentro. Lucas colou as costas contra a parede de concreto frio, o fôlego curto, o peito latejando pelo esforço da invasão. O cartão de acesso que ele usara para entrar já tinha disparado o alerta no sistema central da fundação. Ele não estava apenas invadindo; ele estava entrando em uma jaula que ele mesmo ajudara a construir com anos de submissão silenciosa.
O guarda parou a poucos metros, acendendo um cigarro. O brilho do isqueiro iluminou o rosto calejado, um homem que servia a um deus intocável com a arrogância de quem se sente imune à lei. Lucas não esperou. Ele emergiu da sombra com a precisão de um predador que não tem mais nada a perder. O impacto foi seco, um golpe preciso que silenciou o homem antes mesmo que ele pudesse levar o cigarro aos lábios. Lucas arrastou o corpo para trás de uma caixa de distribuição, o coração batendo um ritmo frenético contra as costelas. O cronômetro no pulso marcava quarenta e oito horas. O tempo para salvar Beatriz não era mais uma estimativa; era um limite biológico.
Ele forçou a entrada lateral, um duto de ventilação que levava ao subsolo. O ar ali dentro era viciado, com cheiro de ozônio e papel queimado. Ao descer, seus olhos se ajustaram à penumbra avermelhada das luzes de emergência. Beatriz estava lá, sentada em um banco de concreto, as mãos trêmulas segurando um tablet. Ela parecia uma sombra de si mesma, a pele pálida sob a luz artificial, mas seus olhos brilhavam com uma urgência que cortou a névoa de exaustão de Lucas.
— Você não deveria ter vindo — ela sussurrou, a voz rouca. — Ele está esperando, Lucas. Ele sabia de cada passo seu desde a fundação.
— Onde está o arquivo? — ele perguntou, ignorando o aviso. O tempo era um luxo que ele não possuía. O contador digital no canto da tela marcava quarenta e oito horas, mas o prazo de autodestruição do arquivo era o verdadeiro carrasco.
Beatriz apontou para a tela. O Livro Negro não era apenas um arquivo; era a prova do desastre ambiental que sustentava a fortuna da família Valente. A lista de pagamentos a políticos, a corrupção sistêmica que mantinha a dinastia no poder, tudo estava ali, condensado em bytes prestes a serem apagados para sempre.
— Eles sabiam desde o primeiro minuto — disse Beatriz, a voz perdendo a força. — A invasão não foi um erro de sistema. Foi um convite.
O silêncio que se seguiu foi interrompido por um som metálico: o travamento magnético da porta principal do bunker. Lucas sentiu o sangue gelar. Ele não estava invisível; ele estava sendo canalizado. A porta deslizou com um suspiro pneumático, revelando o Patriarca Valente. Ele caminhava com a lentidão de quem não tem pressa porque já detém o cronômetro do mundo. Ele parou diante de Beatriz, ajeitando os punhos da camisa como se estivesse em uma reunião de diretoria, não em um cativeiro.
— Você realmente achou que o seu cartão de acesso ainda tinha valor, Lucas? — a voz do Patriarca ecoou pelas paredes de concreto, desprovida de surpresa. — Eu desativei o rastreamento da fundação há três dias. Aquele alarme que você ouviu em São Paulo? Foi um convite. Eu precisava que você trouxesse a última peça da lista de pagamentos para o único lugar onde ela pode ser devidamente incinerada.
Lucas sentiu o peso do pen drive em seu bolso, uma arma que agora parecia um peso morto. O Patriarca não estava apenas escondendo o livro; ele estava esperando Lucas para fechar o ciclo de destruição. O caçador, finalmente, havia se tornado a caça.