A Primeira Linha de Defesa
O cheiro de éter e poeira acumulada na clínica, antes um incômodo, agora era o ar de uma trincheira. Lucas observava pelo vidro fosco da porta lateral: dois homens de jaquetas de couro, silhuetas brutas contra o crepúsculo portuário, bloqueavam a passagem. Eles não estavam apenas vigiando; estavam demarcando o território.
Lá fora, o som de um impacto seco cortou o silêncio. O homem com a cicatriz no supercílio chutara a bengala de Dona Célia, uma das pacientes mais antigas, que tentava acessar a entrada. A idosa cambaleou, o grito de dor abafado pelo riso seco do agressor. O sangue de Lucas gelou, depois ferveu. Ele não podia sair sem ser visto, mas o peso do nome de seu pai — aquele legado que ele tentara descartar como entulho — pulsava em suas têmporas. Ele arremessou um suporte de soro contra a parede metálica. O estrondo reverberou como um tiro. Os dois homens giraram, as mãos indo para as cinturas, o olhar do cicatrizado encontrando a fresta da porta com um reconhecimento predador.
— Ora, ora — a voz do homem atravessou o vidro, carregada de uma calma cruel. — O filho do traidor. Você não é um fantasma, Lucas. Você é o nosso alvo.
Lucas recuou, derrubando uma bandeja de instrumentos para criar uma barreira sonora enquanto corria para o consultório. Ele trancou a porta de madeira pesada, girando a chave enferrujada no momento em que um ombro pesado impactou o batente. O som do metal raspando contra a madeira era o ruído de sua vida anterior sendo demolida.
Dona Mei surgiu das sombras do corredor, os passos silenciosos sobre o piso de taco gasto. Ela não parecia assustada; parecia decepcionada com a hesitação dele.
— Eles não querem apenas o terreno, Lucas — ela disse, a voz cortante como o salitre que invadia a clínica. — Eles querem o que está no livro. Se você abrir essa porta, não está apenas entregando um prédio. Está entregando as vidas de cem famílias que só existem porque o seu pai as manteve seguras nestas páginas.
Lucas olhou para o livro-razão aberto sobre a mesa de mogno. A data marcada para sua 'transferência de custódia' — quarenta e oito horas — parecia uma sentença de morte. Ele não podia fugir. A clínica, antes um lugar de memórias que ele evitava, era agora sua única fortaleza. Ele se ajoelhou, as articulações protestando, e com a ponta de um bisturi, forçou a tábua solta sob a estante de arquivos. O esforço era mecânico, mas o coração batia um ritmo de pânico contido. Sob o assoalho, envolta em plástico impermeável, estava uma caixa de metal com o brasão de um cartório extinto há duas décadas.
Ao abrir a trava enferrujada, Lucas encontrou a escritura original do bairro. Seus olhos percorreram as cláusulas com a precisão de um cirurgião. O documento provava que a posse de Beto Souza era baseada em uma série de fraudes cartoriais sucessivas. Ele tinha a alavanca. Ele tinha a verdade. Mas, ao erguer os papéis, percebeu que a revelação era uma declaração de guerra aberta: Beto não recuaria diante da lei; ele a destruiria para proteger seu império de concreto.
Um estalo seco de metal sendo forçado ecoou pelo corredor. O cerco era total. Lucas caminhou até a janela, mantendo-se fora do campo de visão da rua. O carro de Beto Souza estava parado na esquina, o motor ligado, um ponto de luz luxuosa contrastando com a miséria da calçada. Ele olhou para o próprio reflexo no vidro; o homem que via não era mais o médico que buscava uma venda rápida para voltar ao seu consultório climatizado. Era um refém do próprio sobrenome, um guardião forçado a decidir entre a destruição daquela comunidade ou o seu próprio fim.
— Eu descobri, Dona Mei — Lucas murmurou, a voz firme enquanto guardava a escritura contra o peito. — Mas eles não vão embora. Eles sabem que o livro é a única coisa que os impede de demolir tudo.
Lá fora, os homens começaram a forçar a entrada principal. O cerco não era apenas sobre o terreno; era sobre a memória. E Lucas, pela primeira vez, entendeu que não havia caminho de volta. Ele não seria o homem que vendeu o bairro; ele seria o homem que o defendeu.