Novel

Chapter 2: Nomes que Não Existem

Lucas confronta Beto Souza e descobre, através de Dona Mei, a verdadeira função da clínica como fiadora de identidades. Ao retornar ao livro-razão, ele encontra seu próprio nome vinculado a uma data iminente, tornando-se o alvo direto da pressão de Beto.

Release unitFull access availablePortuguese / Português
Full chapter open Full chapter access is active.

Nomes que Não Existem

O consultório do meu pai cheirava a cânfora, mofo e a uma umidade persistente que parecia brotar das paredes de reboco descascado. Eu deveria estar organizando a papelada para o advogado, apressando o inventário que me libertaria daquela clínica — e daquele bairro — para sempre. Em vez disso, meus dedos tremiam sobre o livro-razão de capa de couro rachada. Não eram prontuários médicos. Não havia histórico de pressão arterial ou alergias a antibióticos. Havia apenas uma lista interminável de nomes, datas e coordenadas portuárias.

Folheei as páginas, sentindo o peso daquela contabilidade clandestina. Onde deveria constar o diagnóstico de um paciente, havia uma anotação sobre 'trânsito seguro' ou 'renovação de identidade'. Meu pai não curava apenas corpos; ele mantinha pessoas inteiras em existência, costurando documentos falsos com a precisão de um cirurgião. Li o nome de Chen Wei, um cozinheiro dado como morto há anos, marcado no livro como 'transferido' em 2019. Ele não tinha morrido; ele tinha sido apagado e reescrito. O progresso de Beto Souza, com seus prédios de vidro que devoravam o bairro, não era apenas imobiliário. Era uma limpeza ética. Se a clínica caísse, o registro de todas essas vidas, escondidas sob nomes que não existiam em cartório nenhum, desapareceria.

Um toque seco na porta de vidro interrompeu meu raciocínio. Antes que eu pudesse responder, Beto Souza entrou. O contraste era ofensivo: o terno impecável de linho cinza parecia sugar toda a luz do ambiente, enquanto seus sapatos de couro polido evitavam as poças de umidade que o teto gotejava no corredor.

— Lucas. Meus pêsames pela perda. Seu pai foi um homem... singular — disse Beto, a voz destilando um carisma ensaiado. Ele não esperou convite para sentar-se, mas seus olhos, rápidos e predatórios, dispararam para o livro sobre a mesa. Eu o fechei com um movimento lento, cobrindo as anotações que ligavam famílias inteiras a dívidas de aluguel que Beto usava como alavanca de despejo.

— O que você quer, Beto? O enterro foi ontem. A clínica está fechada para inventário.

— Apenas uma visita de cortesia. O bairro está mudando, Lucas. E essa clínica... ela é um peso morto. Posso agilizar o processo de compra. Um valor astronômico, o suficiente para você esquecer que este lugar existe.

Ele sabia. Ele sabia o que o livro continha e precisava que eu o entregasse antes que eu entendesse o alcance da rede. Sua pressa não era por lucro, era por eliminação.

Saí da clínica logo após ele partir, sentindo o peso dos olhares dos vizinhos. Fui até a cozinha de Dona Mei, o último reduto de resistência. O cheiro de anis e ervas secas era uma barreira física. Pousei o livro sobre a mesa de fórmica gasta.

— Meu pai não era um médico, Mei. Ele era um cofre. Por que ele carregava o peso de identidades que não são dele?

Dona Mei parou de manipular o pilão de pedra. Seus olhos, endurecidos pelo tempo, perfuraram minha postura pragmática.

— Você chegou aqui com pressa de vender o passado, Lucas. Mas seu pai não guardava nomes por caridade. Ele guardava porque, se essas pessoas fossem apagadas, o bairro inteiro cairia como um castelo de cartas. A clínica é o fiador de vidas que o Beto quer transformar em lucro. Se você vender, você não está vendendo tijolos; está vendendo a existência de quem não tem para onde ir.

Voltei para o consultório sob a escuridão da noite. O silêncio era absoluto, exceto pelo gotejar de água. Abri o livro na página 42, buscando qualquer lógica que pudesse me tirar dali. Entre o registro de um estivador e uma costureira, meus olhos travaram em uma linha escrita com tinta vermelha: Lucas V. Almeida.

Ao lado do meu nome, havia uma data marcada para dali a dois dias. Não era uma consulta. Era uma transferência de custódia, uma cláusula de dívida que eu nunca soube que existia, vinculando minha própria assinatura ao destino da clínica. A revelação atingiu meu peito com a força de um soco. Eu não era apenas o herdeiro de um prédio; eu era a peça final de uma rede clandestina que meu pai planejou que eu assumisse.

Um som de pneus freando no cascalho lá fora me trouxe de volta à realidade. Luzes de faróis varreram as paredes do consultório, circulando o prédio. Os capangas de Beto não estavam mais apenas sondando; eles estavam cercando o local. Eu estava preso, e o tempo que eu tinha para entender por que meu nome estava naquele livro estava prestes a se esgotar.

Member Access

Unlock the full catalog

Free preview gets people in. Membership keeps the story moving.

  • Monthly and yearly membership
  • Comic pages, novels, and screen catalog
  • Resume progress and keep favorites synced