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Chapter 3: O Preço do Silêncio

Lucas tenta usar a lei formal para impedir o despejo, mas descobre que a rede de seu avô foi infiltrada pelo escritório de advocacia de Marco. Após forçar a parada de uma escavação usando um código do livro-razão, Lucas é confrontado por Marco no café, onde percebe que a incorporadora e a rede compartilham a mesma origem secreta.

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O Preço do Silêncio

A luz fluorescente no escritório improvisado de Dona Alzira zumbia, um som elétrico que parecia corroer o silêncio da casa. Lucas observava o maço de notificações de despejo sobre a mesa de madeira gasta. Eram papéis formais, frios, ostentando o timbre do escritório Vargas & Associados — uma firma que, até a semana passada, ele considerava o padrão ouro da ética jurídica na cidade.

— Não perca tempo lendo o que está impresso, Lucas. A lei deles não foi escrita para nós — a voz de Alzira era como cascalho sob botas. Ela não olhava para ele; observava pela fresta da cortina o trator que, lá fora, mordia a fachada do casarão vizinho. O som da demolição era um relógio de contagem regressiva, rítmico e implacável.

— Se eu protocolar a contestação agora, ganho tempo para a defesa coletiva. Eles não podem ignorar o tombamento histórico — Lucas argumentou, mas sua voz falhou. Ele digitava freneticamente, tentando acessar o portal de consulta pública. A tela piscou, exibindo uma mensagem de erro: Acesso negado por ordem judicial. Ao abrir o PDF da petição, ele congelou. No rodapé, um selo de cera digital — o mesmo desenho intrincado que selava o livro-razão escondido sob o assoalho — brilhava com uma ironia cruel. A rede fora infiltrada.

Duas horas depois, o café da esquina servia de cenário para o xadrez verbal com Marco. O ambiente, iluminado por LEDs brancos e frios, fazia o rosto do executivo parecer esculpido em mármore. Lucas sentia o peso do livro sob sua jaqueta, uma ferida aberta contra suas costelas.

— Você está lendo o manual de um jogo que já terminou, Lucas — Marco disse, deslizando uma pasta sobre a fórmica. — A prefeitura assinou a autorização. É uma execução administrativa. O bairro não existe mais no papel.

Lucas abriu a pasta. Não eram apenas ordens de despejo, mas notificações de confisco citando dívidas herdadas. — Isso é ilegal. O bairro tem direitos de posse histórica — Lucas rebateu, as mãos trêmulas escondidas sob a mesa.

Marco inclinou-se, o sorriso desbotando até restar apenas uma linha fina. — A rede? Você ainda acredita nela? Seu avô baniu meu pai por um erro que ele não cometeu. Ele o apagou da história, e agora, eu vou apagar o que sobrou dele. Você tem setenta e duas horas. Depois disso, o concreto será a única coisa que restará desse lugar.

De volta às ruas, a poeira de tijolo pairava como uma mortalha. Dona Alzira estava imóvel diante de um inspetor da prefeitura, um anteparo frágil contra a máquina amarela.

— O senhor não tem autorização ambiental para escavar aqui — Lucas disparou, parando entre a matriarca e o homem de colete refletivo.

O inspetor nem o olhou. — O documento está na central. O que não está no papel, não existe. Saia da frente.

Lucas sentiu o sangue ferver. Ele abriu a jaqueta, revelando o canto do couro gasto do livro. Não era uma prova legal, mas era um código. Ele recitou um número de série, um registro de favor antigo que seu avô anotara na página 42, envolvendo o sogro daquele mesmo inspetor. O homem empalideceu, a mão vacilando sobre o rádio. A máquina parou. Lucas vencera a rodada, mas ao custo de revelar que ele, o tradutor que queria distância, era agora o guardião da rede.

Ele correu para o café, buscando refúgio, mas a porta se abriu com um estalo seco. Marco entrou, trazendo consigo o ar condicionado frio da rua e um documento novo. Ele jogou os papéis sobre a mesa de Lucas. Não era uma notificação judicial, mas um despejo administrativo que ignorava qualquer trâmite legal. Ao observar o timbre, Lucas sentiu o chão fugir: o selo de cera oficial da incorporadora era idêntico, em cada detalhe, ao selo que lacrava o livro-razão de seu avô. A rede e o escritório de Marco não eram opostos; eram dois lados da mesma moeda podre.

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