Novel

Chapter 7: Círculos de Influência

Leo utiliza o Livro Razão para convencer lojistas locais a romperem com o Cobrador, expondo a falha de repasses deste para a cúpula. O Cobrador, acuado pela ameaça de auditoria, perde sua autoridade pública. No entanto, ao tentar verificar as finanças da família, Leo descobre que alguém já está drenando a conta offshore, sinalizando uma traição interna mais profunda.

Release unitFull access availablePortuguese / Português
Full chapter open Full chapter access is active.

Círculos de Influência

O assoalho da loja de Tia Mei não rangia; ele gemia sob o peso de segredos que Leo, até ontem, preferia ignorar. Com a ponta da chave de fenda, ele forçou a madeira. O cheiro de serragem e mofo subiu, um aroma que ele sempre associara à infância, mas que agora cheirava a uma dívida de sangue que ele não autorizara. O Livro Razão estava ali, envolto em plástico encerado, o inventário de uma vida inteira de extorsão que seu pai, o arquiteto do sistema, deixara como herança.

Tia Mei observava da soleira, os dedos cravados no avental. Ela não pediu que ele parasse. Sabia que a ilusão de neutralidade de Leo havia morrido no instante em que o Cobrador pisara no balcão.

— Seu pai não era um santo, Leo — a voz dela era um sussurro, desprovida de defesa. — Ele era o banco. E bancos não fecham por vontade própria; eles são liquidados por quem tem mais capital de medo.

Leo puxou o livro. O peso era insuportável, uma carga física que parecia ancorá-lo ao chão. Ele abriu na página marcada com a fita de seda vermelha. As dívidas de sangue não eram metáforas; eram contratos de sucessão. Ele viu seu próprio nome listado em uma caligrafia elegante, a mesma do pai, datado de meses antes da morte dele. A promessa de sangue não era uma escolha; era uma sentença vinculante.

Ele saiu para a rua, o livro escondido sob a jaqueta. O bairro, antes um labirinto de rostos familiares, agora parecia um tabuleiro de peças prontas para serem derrubadas. Ele entrou na mercearia de Seu Jorge. O velho não o encarou, mantendo as mãos trêmulas sobre o balcão.

— Não vou pagar, Leo. O Cobrador sabe onde meus netos estudam — sibilou Jorge.

Leo deslizou uma folha de papel sobre o balcão. O registro detalhava as remessas não declaradas de 2022. O rosto de Jorge empalideceu.

— Ele não é Deus, Jorge. É um homem com dívidas — Leo baixou a voz, cortante. — E ele parou de repassar o que é devido aos superiores dele. A hierarquia está sangrando. Se você pagar agora, o dinheiro vai direto para o bolso dele, não para quem realmente manda. Se você se alinhar comigo, o perdão que o Livro Razão permite é seu. A rede não é o Cobrador; a rede é o que ele está tentando roubar.

Jorge levantou o olhar, o terror dando lugar a uma dúvida mortal. O silêncio na loja era preenchido apenas pelo zumbido da geladeira velha. Quando Jorge finalmente assentiu, Leo soube que a rachadura na autoridade do Cobrador era real. O medo estava mudando de lado.

Mais tarde, na loja de Tia Mei, o sino de bronze tocou com uma aspereza metálica. O Cobrador entrou, ladeado por dois homens de terno barato, ocupando o espaço como quem inspeciona um espólio.

— O prazo para a liquidação voluntária expira em quarenta e oito horas, Leo — disse o Cobrador, jogando uma pasta de couro sobre o balcão. — A transferência da propriedade para a holding precisa ser assinada hoje.

Leo permaneceu imóvel, as mãos escondidas sob a madeira. Lá fora, lojistas observavam pelas frestas das cortinas, esperando a queda da linhagem que por anos ditara o preço da proteção.

— Não vou assinar — respondeu Leo, a voz firme. — E você deveria se preocupar menos com o meu patrimônio e mais com a sua auditoria. Sei que os pagamentos para a cúpula pararam há três meses. O Livro Razão é claro: quando o banco falha, o executor é o primeiro a ser liquidado.

O Cobrador congelou. A aura de invencibilidade que ele carregava como uma armadura trincou. Ele olhou para Leo, não com raiva, mas com uma confusão súbita e aterrorizada. O homem recuou um passo, a pasta de couro esquecida sobre o balcão. Leo viu, no brilho dos olhos do adversário, a percepção de que a rede, sua única fonte de poder, havia descoberto sua traição. O Cobrador não estava apenas perdendo o controle; ele estava fugindo de uma sentença que ele mesmo ajudara a escrever. Leo sentiu o alívio, mas logo foi substituído por um frio na espinha: se o Cobrador caísse, quem ocuparia o vácuo de poder?

Ao anoitecer, Leo acessou o terminal de rede da loja para verificar os fundos da conta offshore, apenas para encontrar o acesso negado. Alguém havia alterado as credenciais de segurança. O império não estava apenas sendo liquidado; estava sendo roubado por dentro.

Member Access

Unlock the full catalog

Free preview gets people in. Membership keeps the story moving.

  • Monthly and yearly membership
  • Comic pages, novels, and screen catalog
  • Resume progress and keep favorites synced