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Chapter 4: Fragmentos de Lealdade

Leo tenta mediar a crise com os devedores da rede, mas percebe que a lealdade está se esfarelando. Após a loja ser vandalizada e o esconderijo do Livro Razão ser exposto, ele busca refúgio com o Sr. Zhou, apenas para descobrir que o vizinho é o informante do Cobrador.

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Fragmentos de Lealdade

O subsolo do restaurante Dragão de Jade cheirava a óleo de soja queimado e desespero contido. Leo ajustou a gola da jaqueta, sentindo a quina do Livro Razão pressionar suas costelas. O objeto não era apenas papel e tinta; era uma sentença de morte encadernada. Faltavam dez dias para a liquidação forçada, e o tempo parecia escorrer entre seus dedos como areia.

À sua frente, cinco devedores da rede ocupavam cadeiras de plástico rangentes. Entre eles, o Sr. Zhou, o vizinho que lhe trouxera chá durante toda a infância, mantinha as mãos cruzadas sobre a mesa com uma placidez que, agora, Leo reconhecia como a calma de um predador que já sabe o fim da caçada.

— O Cobrador não quer apenas o capital — disse Leo, sua voz firme, embora o pânico subisse como bile. Ele falava em mandarim, a língua que tentara enterrar sob anos de vida acadêmica, mas que agora era sua única ferramenta de sobrevivência. — Ele quer a rede. Ele quer a estrutura que sustenta este bairro. Se cederem agora, a rede cai. E quando cair, não haverá proteção para ninguém quando as autoridades baterem à porta.

Um murmúrio de descontentamento percorreu o grupo. O Sr. Chen, dono da lavanderia, bateu com o punho na mesa, o som seco ecoando nas paredes de concreto.

— Sua tia nos prometeu segurança, Leo. E agora você aparece com essa conversa de auditoria? Como podemos confiar em alguém que mal conhece o peso do que está sendo cobrado?

Leo sentiu o estômago revirar. Ele não era o guardião; era o bode expiatório. Ao tentar mediar, a coesão do grupo se esfarelava, e sob o olhar fixo de Zhou, ele percebeu que cada palavra sua era um dado sendo coletado. A rede não estava apenas sob ataque externo; ela estava sendo drenada por dentro.

Ao retornar para a loja, o choque foi imediato. O vidro da vitrine, que ele limpava toda manhã desde que retornara, estava marcado com um ideograma vermelho — uma mancha de sangue seco aplicada com a precisão de um carrasco. Não era vandalismo; era uma sentença de exclusão.

— Não toque — a voz de Tia Mei soou atrás dele. Ela não parecia surpresa, apenas exausta. — Eles atravessaram a linha, Mei. Isso não é cobrança, é um aviso público.

Leo destrancou a porta, ignorando o tremor em suas mãos. O interior da loja parecia menor, mais claustrofóbico. As prateleiras estavam intactas, mas o assoalho, onde o Livro Razão estivera escondido, fora arrancado. O buraco no chão parecia um estômago aberto.

— Eles não queriam o dinheiro hoje, Leo — Mei continuou, sua voz ganhando uma dureza que ele nunca ouvira antes. — Eles queriam provar que você não tem controle. Eles expuseram o erro contábil que você tentou ocultar. Agora, a rede sabe que a sua família é o elo fraco.

Leo sentiu o chão ceder. A traição de Tia Mei ao expor a falha contábil era uma tática de sobrevivência, um sacrifício de peão para proteger o rei. Ele precisava de uma âncora. Ele buscou refúgio no apartamento de Sr. Zhou, o único que ainda lhe dava um sorriso de conforto.

O apartamento cheirava a jasmim e desinfetante. Leo sentou-se à mesa, os dedos batendo um ritmo nervoso contra a capa do Livro Razão que ele trouxera como escudo.

— Você me disse que meu pai não tinha inimigos na rede, Zhou — Leo começou, a voz cortante. — Mas o livro diz o contrário. Ele tinha alvos.

Sr. Zhou serviu uma xícara, as mãos trêmulas, mas os olhos fixos nos de Leo com uma precisão cirúrgica.

— Memórias são como o papel, Leo. Com o tempo, as bordas se desgastam. Seu pai fez o que era necessário.

Leo puxou um envelope de dentro da jaqueta — uma cópia de um registro de transação que encontrara sob o assoalho, oculto por Tia Mei. Nele, uma série de códigos bancários ligava a conta pessoal de Zhou a uma empresa de fachada usada pelo Cobrador. O ar no apartamento tornou-se rarefeito. Zhou não era o mentor; ele era o vigia. A cada vez que Leo falava sobre a rede, Zhou relatava o progresso. A cada vez que ele tentava proteger a família, Zhou entregava o ponto fraco.

Leo levantou-se, a cadeira arrastando com um ruído estridente. Ele estava sozinho. O vizinho que ele mais confiava não apenas o monitorava, mas estava aguardando o momento exato em que a dívida de sangue de seu pai se tornaria pagável com a sua própria vida.

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