O Último Tick
O ar no sótão da mansão Valença era denso, saturado pelo cheiro de papel mofado e a eletricidade estática de uma fraude prestes a colapsar. Lívia sentia o peso do livro-caixa contra o peito como se fosse uma arma carregada. O tique-taque do relógio de pêndulo no corredor, que por dias fora o metrônomo de sua ansiedade, parecia agora o som de uma contagem regressiva para a execução. Faltavam quatro horas para que a declaração de óbito de Beatriz fosse assinada, selando a transferência definitiva do espólio para Rafael.
— Solte isso, Lívia. Você está brincando com algo que não compreende — a voz de Rafael ecoou, fria e desprovida de qualquer traço de fraternidade. Ele bloqueava a única saída, a silhueta recortada pela luz mortiça, o servidor portátil em suas mãos emitindo um zumbido agudo e constante.
Beatriz, ao lado de Lívia, não recuou. Seus olhos brilhavam com uma satisfação predatória. Ela não era a vítima; era o arquiteto da própria ruína familiar.
— Ele não vai apagar nada — disse Beatriz, a voz firme. — Ele precisa que o servidor limpe os registros antes da audiência. Se destruir a prova agora, ele confessa o crime.
Lívia abriu o livro-caixa na página marcada. B.V. - Acesso Root. A sigla não era uma referência a Beatriz Valença, mas a 'Beneficiário Vazio', a conta fantasma onde a fortuna era drenada.
— É a chave mestra, Rafael — Lívia disparou, os dedos deslizando pelo teclado do servidor que ela subtraíra momentos antes. — Eu sei que o servidor trava se a conta for declarada como 'vazia' antes da liquidação.
O som do pêndulo cessou abruptamente. O silêncio que se seguiu foi absoluto, uma ausência de som que parecia sugar o oxigênio do sótão. O relógio não parara por falha mecânica; o sistema jurídico da mansão, o organismo que sustentava a farsa dos Valença, fora desativado. Rafael empalideceu, o dispositivo em suas mãos piscando em um vermelho intermitente de erro crítico. Ele tentou avançar, mas Lívia já havia inserido o comando final. O servidor, antes um motor de desvio de ativos, tornou-se uma âncora, bloqueando qualquer movimentação de Rafael.
Elas desceram as escadarias de serviço, ignorando os gritos de Rafael. No escritório de Álvaro Salles, encontraram o advogado tentando destruir documentos em uma fragmentadora. Ele não tentou esconder a arma sobre a mesa; apenas parou, derrotado pela própria ganância.
— Rafael fugiu com o que pôde, Álvaro — Lívia declarou, jogando o livro-caixa sobre a mesa de mogno. — O cofre 'B.V.' está vazio. Você foi o bode expiatório.
Álvaro soltou uma risada seca, o rosto cinzento. — Acha que isso a salva? A falência é total. Se entregar esse livro, a única coisa que herdará é uma cela.
— Eu não quero a herança — Lívia rebateu, a voz cortante. — Quero a confissão que liga vocês ao desaparecimento. Dê-me o acesso ao servidor de registros da polícia ou eu mesma abro o sistema para a imprensa agora.
Álvaro cedeu. Com a prova definitiva, Lívia emergiu da mansão. O pátio estava cercado por viaturas. Marta Nogueira aguardava, a expressão indecisa. Lívia não lhe entregou o livro. Em vez disso, conectou o dispositivo de transmissão à rede pública. O escândalo explodiu em tempo real. O nome Valença, antes intocável, tornava-se o centro de uma investigação criminal pública. Rafael foi contido pela polícia enquanto a imprensa documentava cada detalhe. O silêncio do relógio parado era, enfim, a única coisa que restava.