O Último Recurso
O ar na sala de reuniões da Valente Holding não era apenas rarefeito; era tóxico. O silêncio, pesado como chumbo, era interrompido apenas pelo tique-taque do relógio de parede. Faltavam quatro horas e doze minutos para o upload automático dos arquivos da CVM. Para Beatriz, sentada à cabeceira com a postura de quem já contava o espólio, a falência técnica da empresa era a sua guilhotina.
— A votação para a venda do ativo imobiliário está aberta, Arthur — disse ela, sem desviar o olhar do tablet. — Seus credores não aceitarão mais adiamentos. A falência técnica é um fato, não uma opinião. Se não assinar a autorização de venda, a execução será imediata. O conselho já tem os votos necessários.
Arthur observou os conselheiros. Eram homens que, semanas atrás, evitavam seu olhar. Agora, aguardavam apenas o sinal de Beatriz para enterrar o nome Valente. Ele não demonstrou pressa. Abriu sua pasta, retirando apenas um documento: a notificação de vinculação da dívida da holding ao fundo Apex Horizon, de propriedade de Beatriz.
— Você esqueceu de ler a cláusula 14-B com atenção, Beatriz — Arthur começou, a voz fria, cortante. — Ao forçar a incorporação das dívidas da holding no seu fundo para garantir o controle, você não assumiu apenas o lucro da liquidação. Você assinou a responsabilidade solidária por cada centavo do rombo de Otávio. Se a Valente cair, o Apex Horizon implode com ela. Você não está liquidando uma empresa; está cavando a própria cova.
Beatriz parou. O brilho de triunfo em seus olhos vacilou, substituído por uma sombra de pânico estratégico. Ela sabia que Arthur não blefava; ele tinha acesso aos livros contábeis que ela mesma tentara manipular.
— Você não faria isso — ela sussurrou, a voz perdendo a autoridade.
— Eu já fiz. O sistema está travado. Se a venda for aprovada, o gatilho da CVM é puxado automaticamente.
Arthur não esperou pela resposta. Saiu da sala sob o silêncio atordoado dos conselheiros. Ele tinha pouco tempo. O encontro no restaurante no Itaim Bibi não era uma negociação; era uma rendição forçada. Roberto Bastos, o rival que Arthur ajudara a humilhar no passado, aguardava com um sorriso predatório.
— Duzentos milhões, Arthur? — Bastos serviu-se de vinho, observando-o com desdém. — Por que eu salvaria um Valente?
— Você não está salvando um Valente. Está comprando a dívida que a Beatriz usou para tentar me destruir. Se me der a liquidez agora, eu cancelo o upload. A holding continua operando, o ativo permanece inflado e você assume a posição de credor majoritário com autonomia total sobre a diretoria. Você terá a cabeça de Otávio em uma bandeja e o controle da Valente no seu bolso.
Bastos analisou o rapaz. O ódio que sentia pelos Valente foi substituído por uma curiosidade fria. Ele assinou o contrato. Arthur agora tinha o capital, mas o preço era a autonomia da empresa sob uma nova tutela.
Ao retornar à sala de reuniões, Arthur não precisou de gritos. Deslizou o comprovante do aporte de Bastos sobre a mesa. O contador da CVM marcava 03:42:10.
— A insolvência é uma escolha, Beatriz. A sua escolha — Arthur disse, a voz gélida. — A dívida foi coberta. O Apex Horizon está salvo, mas a auditoria externa que aprovei já está em curso. Otávio tentou contornar o sistema, mas cada movimento dele foi registrado. O jogo mudou. Agora, eu sou o único que decide quem cai e quem fica.
Beatriz estava acuada. Otávio, no canto da sala, percebeu que Arthur não jogava para sobreviver, mas para controlar o tabuleiro. A ameaça da CVM ainda pairava, e Arthur, com um sorriso gélido, deu a entender que o próximo passo seria a queda definitiva do patriarca.