A Traição de Beatriz
O ar no escritório da presidência da Valente Holding estava saturado com o cheiro metálico de servidores superaquecidos e o perfume caro de Beatriz. Arthur Valente, sentado na cadeira de couro que ainda carregava o peso de décadas de tirania de Otávio, observava o monitor. O log de acesso era uma assinatura de morte: alguém havia extraído os dados da hipoteca da sede às 03:14 da manhã. Não era um erro. Era uma liquidação programada.
— Você está olhando para o lugar errado, Arthur — a voz de Beatriz cortou o silêncio. Ela estava encostada na porta, a silhueta recortada pela luz fria do corredor. — Tentar auditar o passado agora é um erro de amador. O navio já está adernando.
Arthur não se virou. Ele cruzou os dados: Beatriz não estava apenas monitorando a crise; ela estava redirecionando fluxos de caixa para a Apex Horizon, um fundo de credores internacionais. A sede da holding, o último símbolo de prestígio da família, estava sendo usada como colateral para uma dívida que ela mesma ajudara a inflar.
— Você não está aqui para salvar a empresa — Arthur disse, girando a cadeira lentamente. — Você está aqui para garantir que o casco se rompa antes que eu consiga estancar a hemorragia. Por que entregar nossos ativos de colateral para a Apex?
Beatriz caminhou até a mesa, seus saltos ecoando como tiros no mármore. Ela não negou. Um sorriso gélido, desprovido de qualquer afeto, surgiu em seus lábios. — Meu pai foi um dos sócios que Otávio destruiu há vinte anos. Ele morreu na miséria, acreditando que os Valente eram invencíveis. Eu passei minha vida inteira estudando como desmantelar essa fachada por dentro. A falência técnica não é um acidente, Arthur. É a minha vingança.
Horas depois, a sala de reuniões fervilhava. Faltavam quatro horas e doze minutos para o upload automático que exporia o rombo de 300 milhões à CVM. Beatriz, sentada à direita de Arthur, usava seu tablet como uma arma.
— A situação é clara, senhores — anunciou ela, sua voz dominando o murmúrio dos conselheiros. — A gestão anterior escondeu dívidas impagáveis. A inexperiência de Arthur é o maior risco de liquidação que temos. Se não aprovarmos a venda dos ativos para a Apex Horizon agora, perderemos tudo em seis horas.
Arthur sentiu o peso do relógio em seu pulso. O conselho, composto por abutres que sentiam o cheiro de sangue, começou a murmurar em concordância.
— A venda é uma rendição — Arthur interrompeu, a voz firme. — A cláusula 14-B exige a assinatura de um herdeiro direto para vendas acima de 50 milhões. Eu não assinarei.
Beatriz inclinou-se, o olhar fixo no dele. — A cláusula 14-B só se aplica a ativos solventes. A holding está tecnicamente insolvente. O estatuto perdeu a validade jurídica assim que o caixa atingiu zero. Eu já tenho os votos da maioria para destituí-lo por incapacidade técnica.
Arthur percebeu a armadilha: ela não queria apenas a empresa, queria o espólio. Enquanto os conselheiros discutiam a moção de destituição, Arthur finalizou a configuração de um script de sobreposição no sistema. Ele não estava mais lutando para salvar a empresa de Otávio; estava usando a ganância de Beatriz como a chave que trancaria a porta da Apex Horizon.
— Você acha que venceu porque controla o conselho — Arthur sussurrou, enquanto o upload para a CVM começava a contagem regressiva final. — Mas você esqueceu que, para liquidar a empresa, você precisa de uma assinatura que eu, e apenas eu, posso autenticar. E eu acabei de transferir a dívida secreta da minha mãe para o fundo que você representa. Se a holding cair, a Apex cai com ela.
Beatriz empalideceu, o tablet tremendo em suas mãos. A aliada agora era a presa, e o jogo de xadrez de Arthur estava apenas começando.